segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

E a lua lá fora.

Da janela, viam-se vultos tranformarem-se em pessoas o tempo inteiro. Observei caminhos, árvores, luzes, janelas, edifícios. E o vai-e-vem de carros, sibilando dentre as linhas desenhadas do asfalto. E a lua lá fora, branca, insípida e longuíqua, era a única capaz de observar você.
Da janela, viam-se vultos tranformarem-se em pessoas desimportantes o tempo inteiro. E a lua lá fora nunca me deixou observar a única pessoa que só ela pudia ver.


Amanda F.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ludismo.

Divertido seria ver a expressão das pessoas, se elas pudessem ver tudo o que se passa na minha mente.
É engraçado o que as pessoas não esperam de você.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Bet you will never get to know me.

O que você não sabe sobre mim, é o que me consolida.

O que você não sabe sobre mim é o que libero no escuro, com a música alta estourando tímpanos. São as músicas em que transo com os versos. É o que pulsa nas veias e percorre cada parte do corpo. É o que se traveste do que você conhece.
O que você não sabe sobre mim possui quimeras que você não seria capaz de domar, e explosões que você não seria capaz de conter. E insânia, e volúpia, e vícios, e luxúria. Supernovas e delírios incontáveis.
O que você não sabe sobre mim nunca lhe será disposto nu, no tabuleiro. É o que faz de mim singela, desconhecida. É a vontade de despir, de saber, de procurar, é o que me fortifica.
Não serei nunca uma criatura óbvia demais. Aos poucos, talvez, a personalidade possa ser retirada, tudo que é casual possa ser repetitivo, e as palavras ditas possam ser decoradas.
Mas você nunca me terá inteira.
Apague as luzes. Deixe a luz negra cegar enquanto os corpos dançam. I bet you'll never get to know me.

Amanda F.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Eu sou.

Trivialidades não me atraem. Risos não me regozijam. Pessoas não me são lúdicas. Não gosto do gosto, desgosto do descontentamento, detesto o conformismo. O popular é escaganifobético, a opinião pobre é indesejável, o debate sem argumentos é impossível. Sou uma pessoa fraca de personalidade forte. Ame-me desde o começo, ou deixe-me, porque não mudo, não tenho etiqueta de troca, e sou perecível. Não espere que eu me molde a seus moldes, ou que eu fale o que quer ouvir. Não sou fabricável, não sirvo ao polimento, não tenho preço. Ame-me desde sempre, ou deixe-me para sempre - sem recomeços, sem perdas, sem voltas, sem dramas, sem um gota de você em mim.

Amanda H. Ferreira

Pequena epifania.

O máximo que pode acontecer é você entregar seu coração a alguém.


Sem bandeijas de prata,
sem rodeios, sem fantasias.
Com as mãos, com a alma.
Assim, doce.
E morrer...
morrer vem depois, bem depois.



Amanda F.

sábado, 30 de outubro de 2010

"Você não se perdeu ainda."



"E os amores de cinema?"
"Que tem eles?"
"Onde se encontram, que não me encontram?"
"Que quer dizer?"
"Onde se encontram aquelas sensações de amor explodido, imperfeito, completo, arrebatador, tácito, explícito, incrível, irracional. Onde se encontra a pessoa que me é capaz de mostrá-los?"
"Para isso há muitas respostas."
"Que respostas?"
"Os racionais diriam-te que os amores de cinema estão lá mesmo: no escuro, diante de uma tela enorme de projeção, com atores ensaiados e falas prescritas. A eles nenhum dos amores é digno de arte. Os sonhadores, entretanto, diriam-te que estão lá mesmo: no escuro, diante de você, como uma luz projetada a qual você deve observar, e amar, e sentir. A eles, todos os amores da vida são dignos de filmes."
"E por que não encontro nada?"
"É porque você não se perdeu ainda."
"Que quer dizer?"
"Quero dizer que você procura demais, e, para amar, é necessário primeiro se perder."


Amanda F.

Conhecidos.

Não se conhece ninguém, nem se é conhecido, pois só se é real sozinho. É sozinho que você usa os shorts rasgados, anda nu em casa, grita consigo mesmo, se olha no espelho, faz careta, canta com a escova de cabelo, chora no travesseiro, bate a cabeça na parede, fala consigo - e fala mesmo, às vezes grita. É sozinho que se deita na cama sem lavar os pés, que não se importa em arrumar o cabelo, a cara, a vergonha. É sozinho que se passa cremes na cara, que não se importa se há algo aparecendo, que se prende o cabelo e se joga no chão. É sozinho que se canta no banheiro, que se dança no quarto, que se lê, que se escuta músicas, que se pensa. E é sozinho que as tristezas mais sutis, as que enchem o peito em dias conturbados, escorrem em lágrimas, sem culpa. É sozinho que você chora sem se importar com mais nada, ajoelha-se no chão, irrompe em dor, e se purifica. E é sozinho que se é real.
Não, ninguém te conhece - e você não conhece a ninguém.



Amanda F.

domingo, 24 de outubro de 2010


Precisarei sempre de um porto seguro que não me atraque em solo, que não me mantenha fixo,
mas que esteja sempre lá, nos dias conturbados.
E ainda há uma vaga ao meu lado, tão disponível a todos os que se disporem
a compartilhar comigo algumas sensações, algumas quartas-feiras.
Aos que se dispoem a sentar-se e observar o mar.

É na necessidade enfadonha de manter-me perto das pessoas, que me mantenho longe.


Amanda F.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sobre a leveza.

Às vezes, tenho essas sensações de meio cheio, meio vazio. De quase bom, de quase nada. De meia alma, de meio corpo, de estar cheia, a ponto de estar vazia. Essa sensação de estar caindo, ou estar voando. A sensação do estômago borbulhando e do peito pesado. A sensação das coisas antigas, de ver a lua, de silêncio, de andar na rua, de ver as ondas. O gostinho de ir dormir e desativar o despertador, porque o mundo pode esperar você amanhã. Aquela sensação de tudo bem, meio certo, meio incompleto, meio explodido, meio contido. Todas as sensações em equilíbrio. Um tanto faz, um tudo bem. Aquela sensação de que nada importa. É aquela sensação do bigode de leite, do último raio de sol, do vento na face, da folha caindo, da onda que quebra - é aquela sensação de liberdade, de se importar com nada; sem excessos e sem pesares, prendendo a alma que meio voa, que quase escapa.

Amanda F.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Under city lights.


Acho que tenho medo de me encontrar.

Talvez a esquina errada, um dia ordinário
me achar,
escondida sob alguma sombra.

Amanda F.

Eterna criança.









Às vezes, eu me sinto aquela garotinha que engoli aos trancos, por necessidade bruta, que anda por aí dentro de mim, choramingando a urgência de um porto seguro - um forte, um castelo de areia, uma casa na árvore. Seu lugar.
Amanda F.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Subitamente.


Foda-se o tempo. Eu quero que me arranque de mim. Agora.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Poesia em areia.



Esplêndido.
Aos que não entenderam, trata-se da 2ª Guerra Mundial (ao fim, ela escreve "1945", data do final da guerra, e início da Guerra Fria).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre as cartas que nunca enviei.


Sinto falta.
As rosas que me foram entregues murcharam.
As declarações, sons e cheiros, voaram.
Sobra espaço - mesmo em multidões fechadas. Sobra o espaço que você preencheu - o lugar reservado no sofá velho, a cama grande demais, o ar que antes ocupava. Lugar que ocupava dentro de mim.
Eu disse que viveria sem você. Não preciso, nem vou precisar nunca, de você, como algo essencial na minha existência - não preciso de você como eu preciso de água. Estou vivo e os dias ainda passam. Eu sei que estou vivo porque sinto a falta, o desejo, a angústia. Comprovo, eu mesmo, e provo de minha teoria: eu respiro sem você.
Assim como, sem você, eu não sinto mais coisas que sentia antes. Eu não sinto mais amor, carinho, evasão, e, ah!, eu não sinto mais a luxúria. Mas sinto falta, e me dói esse estado patético de lástima - não o estado em si, mas o fato de estar nesse estado que menosprezo. Dói ser cobaia de minha própria tese.
Às vezes, lembro-me de você dizendo que eu não estaria sempre certo, mas adivinhe só: eu estou. Eu estive. Sempre certo. E nem ao menos posso deliciar isso - porque me pesa.
Saiba que, às vezes, leio as cartas. Leio cartas suas, imagino cartas suas - leio cartas nem ao menos escritas. É só para manter a sanidade - leia-se "sobriedade" - enquanto os dias passam.
Há ainda dias de chuva, em que as cicatrizes latejam. E eu tenho uma pressa súbita de correr por dentre todos os caminhos que seus pés percorreram, chegar a você e implorar pelas respostas das perguntas que eu não consigo responder - e é então que retorno à sanidade, acalmando esse espírito, nesse exercício solitário de impedir a mim mesmo, de provar a mim mesmo que outro lado de mim - o que te busca no vazio - está errado. Não lhe pareço são, mas é verdade, dividi-me em dois, e são duas faces lineares, opostas e petulantes.
No meio a devaneios delirantes, eu escrevo cartas - talvez minhas mão direita crie uma terceira face, sozinha. Eu escrevo cartas que - sei que você sabe - nunca vou mandar. Assim como leio cartas suas que nunca chegariam a minha porta, nem no próximo fim-de-semana, nem na primavera que vem. A verdade, sobre tudo isso, é que eu não daria nada para te ter de volta, mas daria o mundo, e tudo o que me fosse de direito nele, para que você nunca tivesse partido. E é por isso que escrevo. Por isso que ainda escrevo.

Amanda F.


Postscriptum: Lembrar-se de comprar novas rosas.

sábado, 19 de junho de 2010

Ainda pergunto.

E se passaram dias, meses, anos.
E eu ainda me pergunto onde estávamos, o que fazíamos...por que nos perdemos? Quando foi que você decidiu ir embora, para, como de praxe, afundar sozinho? Quando, sozinha, me deixou a naufragar?
Porque eu, que era forte, afundei.
Ainda me pergunto onde está você, como está seu sorriso hoje - seria aquele falso, para me fazer sentir bem, ou aquele outro, o mais ofuscante de todos. Como você está, onde andará, como foi seu dia. Pergunto-me onde nos perdemos, onde errei.
Onde eu errei e me perdi, talvez por alguma peça errada, em nosso puzzle, bloqueada por alguma lembrança...
E ainda busco - mais que tudo... Ainda busco desesperadamente a lembrança daquele sentimento, que explodia no meu peito, só por deixar você chegar até mim. Por que não bate mais a minha porta? Por que não consigo mais reviver aquilo dentro de mim?
Se passaram dias. Meses. Anos. E eu ainda me pergunto.

Amanda F.

domingo, 6 de junho de 2010

Monocromática & A arte de morrer diariamente.

A chuva cai. O vento leva as palavras. Folhas de Outono deslizam no vazio.
O escuro persiste. O Sol aparece. As nuvens formam-se.
As pessoas andam. Novas relações são feitas. Antigos traços são apagados. As cicatrizes ainda existem.
Folhas no Inverno somem. Mentes devaneiam. Os olhos pairam. A paisagem borda-se. Ontem foi o dia que passou. Amanhã o dia que espera. Hoje é algo entre isso. Enlaçam-se os corpos de almas solitárias. Descomplementares procuram o encaixe, esperando que o enlace entre outros corpos alheios os completem. O Sol reaparece.
Folhas na Primavera ressurgem. Adolescentes amam. Rostos enrubecem. Antigos enlaces desenlaçam na manhã. Em algum momento, na cama a dois, sobra um.
Folhas de verão crescem.
A chuva cai. O vento leva as palavras. As pessoas andam. Novas relações são feitas.
Antigos traços apagados. Mas cicatrizes ainda existem - sempre ficam.
Mentes devaneiam.
Os olhos pairam.
Ela sabia antes de chegar a esse ponto. Por aí, vivendo a arte de morrer por dentro. Um pouco a cada dia. Porque a chuva ainda cai, o Sol aparece, novas relações são feitas - embora sua alma não encontre encaixe nem nela mesma.
A chuva cai. O vento leva as palavras. Folhas de Outono deslizam no vazio.



Amanda F.


Descomplementares procuram o encaixe, esperando que o enlace entre outros corpos alheios os completem

domingo, 23 de maio de 2010

Criptografada.

Talvez um dia, eu venha a te confessar tudo aquilo, que realmente havia pensado, embora saiba que as mentiras se tornarão mais espessas no decorrer do tempo. E ainda vou lidar com esse passado trancafiado, apenas para me tornar mais perto de mim, e mais longe dele. Peço que não se iluda naquilo que não consegue compreender, porque eu não nasci racionalizada - minha mente sempre foi assim, um tanto torpe - e minha intenção nunca foi me tornar coesa. Por isso, não me interprete. Não me organize. Não me decodifique. Não me traduza. Sinta-me.
Pois possui razão a professora de português: o meu problema é a resposta confusa das perguntas simples.


Amanda F.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Desnuda e Desmascarada.

Não se percebem as depressões mais profundas da alma, até que alguém de fora da nossa carcaça - alguém de outra dimensão, que não o nosso próprio psicológico - dirija-se a nós, e as contem - todas elas - em voz aguçada, audível.
Uma por uma.
Até que todas as cicatrizes ressurgem da mais profunda negação; até que todo o tecido, e lástima, parecem nunca terem sido lacrados. E jorra, mais uma vez, em forma líquida, como chuva tórrida de verão - alagando a face, inundando os olhos. Afogando o que antes julgava inteiro, por dentro.
Inevitavelmente.
Deixando cair a máscara que me escondia.
De mim mesmo.

Amanda F.

domingo, 25 de abril de 2010

Vaga.

Às vezes, tenho a sensação de que estou me apagando. Consumindo-me. Talvez seja só parte do Script. Da parte que sei que vou esquecer, então antes mesmo de tentar, não faço questão de lembrar. Onde estive, por onde andei, o que disse. A mente entorpecida. E por assim dizer, vou apagando as minhas trilhas, recordada por outros, esquecida por mim.

Amanda F.

Tempo Primordial.

Eu queria um tempo em que eu pudesse ser ninguém.
Eu queria um tempo em que pudesse transpor quem eu sou.
Tomar um tempo, foder com ele. Fazer todas as coisas do mundo, na esperança de esquecer depois. Talvez. Ousar de toda luxúria, toda volúpia, todo pecado, todo mártir. Beber de todo o elixir da culpa, discórdia, prazer.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse ser feliz um dia inteiro, na íntegra.
Fazer coisas estúpidas, passar um dia banhada em nada, sentir o vento, falar besteira. Esquecer-te um pouco. Talvez. Causar toda a idiotice plausível, imaginável, desejável. Coisas bestas. Beber da fonte mais pura da insanidade, desta vez causada pelo choque de tão elevado nível de alegria.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse morrer.
Sentir toda a tristeza que pudesse penetrar em meus poros, um dia. Sofrer como ninguém nunca sofrera antes, aprender a aguentar a alma misantropa, desgastada, inútil. Sofrida. Morrer em vida. Talvez. Sanar todo o tipo de dor menor esquecida, arrancar feridas antigas. Deixar sangrar.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse nascer de novo.
Livre do lixo da amargura, do descrer humano. Apagar. Esquecer. Morrer. Nascer.
Eu queria ser Fênix, ser Urano, ser Júpiter, ser Cronos.
Eu queria ser uma morta renascida. Eu não queria ser essa morta viva.
Tão cronometrada. Tão indisposta. Tão presa ao tempo. Tão repetitiva. Tão gasta.

Eu queria ter um tempo em branco, esquecimento. Um tempo em que fosse tomada da ignorância. Queria viver todos os sentimentos do mundo. E esquecer.

Começar a redijir uma folha em branco, sem marcas, sem direção, sem memória, tão mais brilhante do que a que estava apagada.

Amanda F.

terça-feira, 13 de abril de 2010

À aniversariante de hoje,


Não possuo risos melhores a dar do que aqueles que você me deu.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Já não importa.


O engraçado, e talvez mais desesperador de tudo, é que já não me importo.
Eu simplesmente já não me importo até onde isso tudo irá chegar - o importante é que continuamos chegando.






Amanda F.

sábado, 20 de março de 2010

Nada utilitário à alguém.

Não escrevo agora, neste exato momento, com estas mesmas palavras, nada útil à ninguém.

Não me escrevo pelo prazer do escrever, ou para soar bem à alguém. Não me escrevo por nada mais que não a covardia, perdida no medo do gritar - e no medo do silêncio.
Escrevo sem esperar que algo seja modificado nesta vida seca que estou vivendo, ou na intenção de provocar algum arrebatador sentimento, no âmago destes mesmos olhos vazios que agora estão serpenteando dentre este texto, lendo este esboço sem a mínima atenção real.
Escrevo na esperança de parar de chorar.
Parar de tremer de frio - uma sensação estranha que não me deixa gelada, não me deixa desejosa por calor. Só uma sensação de falta de energia, da falta de transição da necessidade humana por algo que acalente.
Escrevo para parar de tremer.
Na hipocrisia de gostar de letras, estruturas e palavras, escrevo para usá-las. Não quero aumentar qualquer espécie de sentimento alheio, não me importo em causar empatia. Não preciso, agora, escrever bonito. Eu posso escrever nestas linhas tortas, com estas letras garranchudas, porque eu só quero gritar, respirar com a pulsação normal, escrever até que esta mancha líquida, escorrida sobre a minha face, seque, só até que meus olhos murchem, e o tom avermelhado, das maçãs do rosto, sumam. Aí, direi-lhes que estou sonolenta, mais uma vez falsa.
Mas agora não preciso escrever ou falar nada real, nada bonito, embora minha realidade esteja momentâneamente feia, não quero mudar meu mundo, só quero que meu coração pare de pulsar assim, e que o silêncio que me cerca, também faça perder-me em minhas próprias palavras, nesta explosão errônea, rápida e mal-feita, em tinta.
Nada mais encaixa-se como antes. A última coisa de que quero recordar-me não é um beijo lúdico. Torto. Só não quero lembrar de nada.
Doem-me os nós dos dedos, e, em breve, alguém mal informado da vida alheia irromperá cômodo adentro, e talvez este alguém não me perceba, corcunda sobre esta folha de papel. Talvez pareça só mais alguém que não escreve na esperança de que algo mudará. Talvez. Não por agora.
Mas avisei que não escreveria nada útil à ninguém.

Amanda F.


18.03.2010
18:15

quinta-feira, 18 de março de 2010

24 horas.


Há dias que gostaria de transpor, como que por um simples toque, no botão de "agilizar vídeo", do controle remoto. Dias estes em que o mundo parece mais pesado, confuso, incerto. Mais lastimável. Torto. Dias estes que teimam em passar lentamente, mas que possuem toda a sorte das 24 horas sequenciais para que as lágrimas caiam rapidamente, dolorosas na face. Fáceis. O nascer do sol não parece iluminar nada mais, e o anúncio do cair da noite torna gritante as 12 horas intermináveis de escuridão que restam, até que o primeiro raio de sol reapareça. E nada me restaria no dia que segue este, a não ser a esperança de que o negrume tenha sucumbido, e que o primeiro raio de sol poderia iluminar os resquícios das melancólicas 24 horas deste dia que se arrastou.
Que me arrastou.

Amanda H. Ferreira

segunda-feira, 8 de março de 2010

Felicidade boba.


Sabe aquele sentimento que nos faz sentir o estômago frio, como se tivéssemos comido todo estoque de sorvete do mundo, e nos estampa um sorriso no rosto, de modo que parece que há um cabide dentro de nossa boca? Essa felicidade boba que deixa o mundo inteiro colorido por pelo menos alguns minutos da nossa vida, e que nos impede de pregar os olhos de noite, porque ainda estamos sorrindo, é o melhor sentimento do mundo.
Amanda F.

As mãos sob o fantoche.


_ Algum dia, proferirei-lhe minha pergunta.

Por que você não me parece a garota frágil que encanta-se com tantos personagens, que aprecia tanto - ou mais que eu - o prazer de observar a lua? A garota que, como eu, esconde-se de tudo e de todos, sob a roupa que o texto tece-lhe?
Por que sinto que sofre, e que se agita, por detrás das estampas de seu tênis Nike, e que - como, ou mais que eu - prefere não sentir a agonia do passar do tempo?
Por que ambas gostamos do sentimento resignado, do prazer oculto? Por que gostamos de vestir personagens que tinem em tímpanos alheios palavras que, às vezes, não nos pertencem, e vestimentas que não fazem jus a nossa real aparência?
Por que me incomoda, profundamente, olhar para você - uma sombra do fantoche comandado pelo seu "eu" real, um fantoche que criou para si, à imagem e semelhança que os outros criaram de você, e para você? Um fantoche que outros vestiram em suas mãos. Por que me incomoda profundamente ver seu eu real omisso, tão real quanto as mãos que eu mesma omito sob meu fantoche?

_ Algum dia, fingirei que não sei a resposta.

Amanda F.


Texto editado.
Original escrito em: 08/03/2010, às 14:35.
Foto: Site " Reverbera, querida!".

sábado, 6 de março de 2010

Vida interna.

Ela, que vive a vida toda para dentro, que não percebe a necessidade humana e social de se encaixar. Ela, que por mais tempo esteve sozinha, e que não se importou nenhum pouco com isso. Ela, que se tranca no banheiro para dividir a própria ausência, a própria companhia, e para observar a silhueta conhecida, a sua silhueta de sempre, tatuada na parede branca do pequeno espaço. Que senta na tampa do sanitário, descansa os cotovelos nos joelhos, e o rosto nas mãos, encolhida, com a chave da entrada trancada enroscada entre seus dedos, apenas para que ninguém bata na porta ou irrompa no cômodo.
Ela, que aprendeu a escrever, para não ter de falar, e que procurou viver tanto a solidão prazerosamente. Que caminha nas ruas cedo demais ou tarde demais, apenas para não ter de ver carros, pessoas, bicicletas ou animais, dividindo a mesma visão e o mesmo percurso que ela.
Ela, que ouve aos próprios pensamentos mais do que a vozes alheias, que escuta música nos fones, mesmo sozinha, para não dividir a melodia a lugar algum mais que aos próprios tímpanos.
Ela, que sem querer fecha-se, talvez pela noção clara da própria antipatia, ou talvez pela noção que criou dela.
Ela, que daria tudo para caminhar na praia no pôr-do-sol, sem companhia alguma, sem barulho algum, sem visão alguma...sem ter qualquer coisa que seja, que não o barulho da fricção de grãos da areia, do mar tão solitário e tão bonito - do mar homogêneo, que esconde tamanha diversidade internamente. Ela que lê livros, que passa férias de inverno e de verão diante ao ecrã de um computador, sem necessitar de beijos, abraços ou telefonemas.
Ela, que vive a vida internamente, ainda assusta-se sempre que percebe o quão incessantemente - e estranhamente - ela depende de você.

Amanda F.

"Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo."
(caio fernando abreu)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sempre.


Então, não se esqueça, amor, quando tudo acabar,
que o nosso "para sempre", sempre fora somente mais um período dentre o tempo e o espaço,
e que era a nossa forma secreta e codificada de dizer que,
enquanto nossa música ainda tocasse nas rádios,
seríamos eternos.
E é nas lembrança nossas, que, para sempre, serei sua.


Amanda F.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Just a little bit more of sugar.




Congele o seu tempo. Ponha duas colheres de açúcar e leve à banho Maria
Há algum tempo, aderi a uma tendência de ouvir pessoas falando sobre perdas amorosas, e romances estranhos. Havia metido em minha mente que nada era exatamente duradouro, e admiti estar parcialmente certa a ideia dos covardes de que "foi bom enquanto durou". Passei, então, algum tempo fingindo às pessoas certas que eu não compreendia, de fato, a perda delas, e que, talvez, era só isso que eu devesse fazer: simplesmente fingir que não transborda realmente sobre mim a dor que elas sentem, que eu não sei o que está se passando, e então, com o tempo, talvez tudo fosse ficar bem de novo para elas. Talvez essas mesmas pessoas se convencessem de que eu não percebera, ou até mesmo elas cheguem até mim para falar sobre isso algum dia, como uma confissão ultrassecreta, que na verdade é só mais uma válcula de escape para o sofrimento delas mesmas - porque eu, na verdade, sempre soubera.
Acontece que, como uma utopia invisível, um código secreto ou um suspiro enterrado fundo no peito, a verdade é que esta ideia toda é uma simples farsa criada de modo a nos fazer sentir melhor: Não há dor e não há tempo, não há felicidade e não há amor, que possam fazer curar uma coisa tão forte, e tão inesperada, quanto a simples perda de alguém amado.
E então toda aquela lábia frustrante de ser forte parece ter todo um sentido diferente. Basta ser forte, porque sempre vamos perder alguém que amamos, e amor, ah!, amor não é o suficiente para manter qualquer coisa que seja eterna. Só porque você ama alguém, não quer dizer que isso bastava para que essa pessoa ficasse ali, sempre. E é a partir deste momento que devemos ser fortes - que é na verdade, fingir sermos menos fracos - para esperar algo que é inevitável na vida; ser fortes para fingir que aguentamos não ter mais a pessoa que tanto amamos.
Mas no fundo, nós só somos pele, carcaça. Nós andamos, falamos, comemos, transamos, temos filhos, aprendemos, fazemos coisas que se aproximem de uma vida, e mesmo assim, quase um século, nunca é tempo suficiente para que saibamos viver. E o que somos nós? Apenas o impulso de fazer algo grandioso não fará de nós mais do que nós somos, não fará de nós mais do que matéria. Não fará de nós pessoas diferentes, só parte de uma minoria que fez algo importante...mas que, como todos os outros, perdeu pessoas que amava, amou outras, e morreu no fim. A inevitável dor e a inevitável perda, chega até para os mais grandiosos.
A partir dai, gostaria de parar o tempo. Gostaria de ter apreciado cada momento melhor do que o que eu tinha apreciado com as pessoas que vou perder, e com as pessoas que perdi. Mas "aproveitar mais" é tão mais prático de se dizer na teoria.
Portanto, gostaria que tudo fosse tão fácil quanto os pensamentos filosóficos e os conselhos passados dizem ser. Gostaria que todos os momentos felizes que passamos juntos fossem o suficiente para ficar tudo bem, quando acordar de manhã e lembrar que aquela pessoa não estará mais lá - mas nada disso é verdade, e os momentos felizes nos remetem a mais falta e mais dor.
A verdade mais fria, então, é que gostaria que a realidade tivesse só um pouco mais de açúcar, porque assim - só talvez - não nos afogássemos tão amargamente.


Mexa calmamente, e espere até que o açúcar penetre.


Amanda F.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Às vezes.

Às vezes, quando me permito fechar os olhos, sinto seus lábios nos meus. Sinto o corpo mais morno, o arfar no pescoço.
Às vezes, o simples fato de estar sozinha preenche-me por completo, e somente fingir que você está mais perto, sussurrando em minha direção no vazio constante, faz-me sentir em meio a um turbilhão de cores, sensações, toques e sentidos...sem ao menos ter de levantar os cílios.
Às vezes, o vento parece tão mais leve e a saudade tão mais presente, que me permito abrir os olhos de novo, e, mesmo assim, sussurrar de volta ao vazio dos arredores, porque apenas tenho a sensação de que, de um jeito ou de outro,
vou me levar a você.

Amanda F.
Foto: LookBook.nu