Sou boba - e não, não descobri isso recentemente. Também não me desespero com isso, nem sequer acho ruim. Acho que a bobagem tem seu próprio charme. Sou boba porque gosto de coisas tão simples que parece mentira - não tem presente mais bonito no mundo pra mim do que uma carta escrita à mão, toda alma e coração; um lindo caderno em branco; uma caneta singular para escrever textos; caixinhas; a possibilidade de um dia na praia; uma declaração; um passeio de carro com as mãos enlaçadas nas dele; um livro; um filme; uma viagem; um petit gateau dividido por duas colheres.
Não tem tarde mais bonita do que aquela em que posso ficar deitada, completamente encolhida, no colo de quem eu amo, vendo um filme divertido, enfiando a mão cheia no balde de pipoca, e fingindo, convincentemente, que fiquei chateada porque ele comeu o triplo que eu, embora eu não quisesse mais. Também amo pouquíssimas coisas na vida tanto quanto amo dormir com o despertador desligado; ouvir que alguém me ama; ver quem eu amo me observando em silêncio com um sorriso no rosto; fazer alguém sorrir; acreditar no amor; andar descalça na areia da praia (julgo triste, em silêncio, quem não tira as sandálias para sentir a areia dourada entre os dedos dos pés); colocar o corpo na água (nem que seja só a pontinha dos dedos); pular ondas; sentir o gosto do mar na boca; não me importar em me molhar na chuva; ver as pessoas passando lá embaixo, do alto da varanda de um prédio; ver o céu; passar as mãos pelos livros de uma livraria; sentir o cheiro do papel; receber o carinho de alguém.
Aliás, sou extremamente boba por preferir o carinho sincero de uma abraço macio e quentinho, cafuné, jogos de tabuleiro, dedos das mãos percorrendo minha coluna e fazendo nós no meu cabelo dourado, beijos que preenchem qualquer vazio no peito e mãos dadas em tardes de segundas, terças, sextas - do que sair todos os finais de semana com pessoas diferentes, experimentando tão somente corpos, bocas, toques - tudo sem qualquer sentimento e, portanto, sentido. Minha bobagem me permite ser tão inteira sozinha que nada no mundo me obrigaria a ficar com outra pessoa que não o simples fato de amá-la com cada centímetro do meu corpo. Isso me destrói devagarinho, às vezes, mas sempre passa, e eu gosto de acreditar que o desapego também ensina, e que o amor, que transbordo ao mundo, volta em coisas lindas.
Além disso, ela também me lembra que amo demais, demais, aprender. Qualquer coisa. Amo o conhecimento, fotos, histórias, contos, máquinas fotográficas, vento, Sol, jantar à luz de velas, música, poesia, arte, cheiro de cinema, peônias, blues. Ela me permite ficar feliz tão rápido quanto fico triste, me proíbe de ser ruim demais com qualquer pessoa, de negar um favor, de não ouvir qualquer tristeza. Eu sou dessas pessoas que detém urgência em ajudar o próximo, que chora com o choro alheio, que abraça pra se despedir, que sente saudades de casa de vó, que empresta um pouquinho da alma, que ama dar presentes, que sente muita saudade de tudo, que chora sorrindo e sorri chorando.
No final das contas, tinha esquecido de tanta, tanta coisa (boba) sobre mim mesma, na conturbação dos dias, na rotina louca - que não era a minha, porque eu, em geral, não vejo nada de ruim nela, quando o cotidiano é bom. Tinha perdido o tato e a vontade de escrever. Tinha desfolhado por aí e entristecido com a falta de amor e de carinho nos meus dias. Ando em processo de redescoberta de mim mesma e das pequenas felicidades que me cercam, todos os dias, pra nunca mais perder a vontade de ser quem eu sou ou de vestir o corpo que visto, porque a minha mais antiga bobagem me deu uns tapas e disse que acordasse do pesadelo e que deixasse que a vida seguisse - a bobagem que me recorda, todos os dias, que, dentre as minhas melhores manias, mora a de querer ser feliz. Sempre.
Amanda F.
Fotos: Dele e Dela







Um comentário:
Fiquei tão feliz quando vi um novo texto teu, a gente sempre acaba voltando pra cá huahuah! Já tava com muita saudade de me encontrar nessas palavras que não são minhas, mas que me fazem tanto sentido. Sabe, ser boba é lindo, principalmente porque é simples. Ninguém é bobo porque quer, é um privilégio, quase um dom! As pessoas perdem tanto tempo da vida dando valor para o desnecessário, sem saber que os pequenos prazeres são os melhores! Me encantei com esse texto, e queria te dizer que és tão feliz que isso transborda pelas tuas letras. Em ti, não mora somente a vontade de ser feliz, mora também a felicidade em si! Saudade enorme!
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