
Era tarde da madrugada, ou cedo da manhã. Não sabia dizer ao certo. Saiu do banho e abandonou a toalha. Estava diante do espelho da forma como se pôs diante do mundo, assim que nasceu - lua. Sim, lua. As formas ditando o prateado romântico e distante, que orbita o mesmo planeta há tempo demais; as curvas ditando as faces internas, jamais lineares. Não a importava a forma - ela sabia que era nua o que muitos não são vestidos (havia escrito algo a respeito, aliás, em algum de seus cadernos escondidos, de capa monocromática, onde mantinha os textos longe de outros mundos). Não interessava. Nem o cabelo encharcado do banho, pingando gotas lentas sobre a costa, nem os braços caídos, nem as formas de lua. Não a importava. Diante do espelho, fitava os olhos.
Por um instante, parecia não ter notado os próprios olhos há séculos. Eram grandes, escuros; tinham os cílios irregulares, longos, curvados - como as faces internas, como o quadro todo. Não havia notado - eram doces, cansados. Fitou os próprios olhos tempo demais, de modo a enxergá-los. Sorriu. Pensou em como era só - na mania misantropa de ser só. Com olhos sós. Parou de sorrir. Eram olhos de água, tão densos, profundos, transbordantes - transbordavam um medo engraçado.
Fechou os olhos. Escondeu os oceanos. Tinha medo de formar uma expedição e se perder neles...
Medo de jamais encontrar alguém disposto a mergulhar.
Amanda F.