
Sinto falta.
As rosas que me foram entregues murcharam.
As declarações, sons e cheiros, voaram.
Sobra espaço - mesmo em multidões fechadas. Sobra o espaço que você preencheu - o lugar reservado no sofá velho, a cama grande demais, o ar que antes ocupava. Lugar que ocupava dentro de mim.
Eu disse que viveria sem você. Não preciso, nem vou precisar nunca, de você, como algo essencial na minha existência - não preciso de você como eu preciso de água. Estou vivo e os dias ainda passam. Eu sei que estou vivo porque sinto a falta, o desejo, a angústia. Comprovo, eu mesmo, e provo de minha teoria: eu respiro sem você.
Assim como, sem você, eu não sinto mais coisas que sentia antes. Eu não sinto mais amor, carinho, evasão, e, ah!, eu não sinto mais a luxúria. Mas sinto falta, e me dói esse estado patético de lástima - não o estado em si, mas o fato de estar nesse estado que menosprezo. Dói ser cobaia de minha própria tese.
Às vezes, lembro-me de você dizendo que eu não estaria sempre certo, mas adivinhe só: eu estou. Eu estive. Sempre certo. E nem ao menos posso deliciar isso - porque me pesa.
Saiba que, às vezes, leio as cartas. Leio cartas suas, imagino cartas suas - leio cartas nem ao menos escritas. É só para manter a sanidade - leia-se "sobriedade" - enquanto os dias passam.
Há ainda dias de chuva, em que as cicatrizes latejam. E eu tenho uma pressa súbita de correr por dentre todos os caminhos que seus pés percorreram, chegar a você e implorar pelas respostas das perguntas que eu não consigo responder - e é então que retorno à sanidade, acalmando esse espírito, nesse exercício solitário de impedir a mim mesmo, de provar a mim mesmo que outro lado de mim - o que te busca no vazio - está errado. Não lhe pareço são, mas é verdade, dividi-me em dois, e são duas faces lineares, opostas e petulantes.
No meio a devaneios delirantes, eu escrevo cartas - talvez minhas mão direita crie uma terceira face, sozinha. Eu escrevo cartas que - sei que você sabe - nunca vou mandar. Assim como leio cartas suas que nunca chegariam a minha porta, nem no próximo fim-de-semana, nem na primavera que vem. A verdade, sobre tudo isso, é que eu não daria nada para te ter de volta, mas daria o mundo, e tudo o que me fosse de direito nele, para que você nunca tivesse partido. E é por isso que escrevo. Por isso que ainda escrevo.
Amanda F.
Postscriptum: Lembrar-se de comprar novas rosas.

