segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre as cartas que nunca enviei.


Sinto falta.
As rosas que me foram entregues murcharam.
As declarações, sons e cheiros, voaram.
Sobra espaço - mesmo em multidões fechadas. Sobra o espaço que você preencheu - o lugar reservado no sofá velho, a cama grande demais, o ar que antes ocupava. Lugar que ocupava dentro de mim.
Eu disse que viveria sem você. Não preciso, nem vou precisar nunca, de você, como algo essencial na minha existência - não preciso de você como eu preciso de água. Estou vivo e os dias ainda passam. Eu sei que estou vivo porque sinto a falta, o desejo, a angústia. Comprovo, eu mesmo, e provo de minha teoria: eu respiro sem você.
Assim como, sem você, eu não sinto mais coisas que sentia antes. Eu não sinto mais amor, carinho, evasão, e, ah!, eu não sinto mais a luxúria. Mas sinto falta, e me dói esse estado patético de lástima - não o estado em si, mas o fato de estar nesse estado que menosprezo. Dói ser cobaia de minha própria tese.
Às vezes, lembro-me de você dizendo que eu não estaria sempre certo, mas adivinhe só: eu estou. Eu estive. Sempre certo. E nem ao menos posso deliciar isso - porque me pesa.
Saiba que, às vezes, leio as cartas. Leio cartas suas, imagino cartas suas - leio cartas nem ao menos escritas. É só para manter a sanidade - leia-se "sobriedade" - enquanto os dias passam.
Há ainda dias de chuva, em que as cicatrizes latejam. E eu tenho uma pressa súbita de correr por dentre todos os caminhos que seus pés percorreram, chegar a você e implorar pelas respostas das perguntas que eu não consigo responder - e é então que retorno à sanidade, acalmando esse espírito, nesse exercício solitário de impedir a mim mesmo, de provar a mim mesmo que outro lado de mim - o que te busca no vazio - está errado. Não lhe pareço são, mas é verdade, dividi-me em dois, e são duas faces lineares, opostas e petulantes.
No meio a devaneios delirantes, eu escrevo cartas - talvez minhas mão direita crie uma terceira face, sozinha. Eu escrevo cartas que - sei que você sabe - nunca vou mandar. Assim como leio cartas suas que nunca chegariam a minha porta, nem no próximo fim-de-semana, nem na primavera que vem. A verdade, sobre tudo isso, é que eu não daria nada para te ter de volta, mas daria o mundo, e tudo o que me fosse de direito nele, para que você nunca tivesse partido. E é por isso que escrevo. Por isso que ainda escrevo.

Amanda F.


Postscriptum: Lembrar-se de comprar novas rosas.

sábado, 19 de junho de 2010

Ainda pergunto.

E se passaram dias, meses, anos.
E eu ainda me pergunto onde estávamos, o que fazíamos...por que nos perdemos? Quando foi que você decidiu ir embora, para, como de praxe, afundar sozinho? Quando, sozinha, me deixou a naufragar?
Porque eu, que era forte, afundei.
Ainda me pergunto onde está você, como está seu sorriso hoje - seria aquele falso, para me fazer sentir bem, ou aquele outro, o mais ofuscante de todos. Como você está, onde andará, como foi seu dia. Pergunto-me onde nos perdemos, onde errei.
Onde eu errei e me perdi, talvez por alguma peça errada, em nosso puzzle, bloqueada por alguma lembrança...
E ainda busco - mais que tudo... Ainda busco desesperadamente a lembrança daquele sentimento, que explodia no meu peito, só por deixar você chegar até mim. Por que não bate mais a minha porta? Por que não consigo mais reviver aquilo dentro de mim?
Se passaram dias. Meses. Anos. E eu ainda me pergunto.

Amanda F.

domingo, 6 de junho de 2010

Monocromática & A arte de morrer diariamente.

A chuva cai. O vento leva as palavras. Folhas de Outono deslizam no vazio.
O escuro persiste. O Sol aparece. As nuvens formam-se.
As pessoas andam. Novas relações são feitas. Antigos traços são apagados. As cicatrizes ainda existem.
Folhas no Inverno somem. Mentes devaneiam. Os olhos pairam. A paisagem borda-se. Ontem foi o dia que passou. Amanhã o dia que espera. Hoje é algo entre isso. Enlaçam-se os corpos de almas solitárias. Descomplementares procuram o encaixe, esperando que o enlace entre outros corpos alheios os completem. O Sol reaparece.
Folhas na Primavera ressurgem. Adolescentes amam. Rostos enrubecem. Antigos enlaces desenlaçam na manhã. Em algum momento, na cama a dois, sobra um.
Folhas de verão crescem.
A chuva cai. O vento leva as palavras. As pessoas andam. Novas relações são feitas.
Antigos traços apagados. Mas cicatrizes ainda existem - sempre ficam.
Mentes devaneiam.
Os olhos pairam.
Ela sabia antes de chegar a esse ponto. Por aí, vivendo a arte de morrer por dentro. Um pouco a cada dia. Porque a chuva ainda cai, o Sol aparece, novas relações são feitas - embora sua alma não encontre encaixe nem nela mesma.
A chuva cai. O vento leva as palavras. Folhas de Outono deslizam no vazio.



Amanda F.


Descomplementares procuram o encaixe, esperando que o enlace entre outros corpos alheios os completem