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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Embarque imediato.


           "Um belo dia resolvi mudar", cantava Rita Lee, em uma terça-feira qualquer, naquele antigo rádio, enquanto eu sorria do outro lado dos alto-falantes. Fazer tudo que eu queria fazer. Havia retirado a bagagem da alma e prometido a mim mesma que viajaria dentro de mim. Reorganizando as prioridades, limpando a matéria cerzida e gasta dentro do peito, porque bagagem demais pesa, e minhas pernas já doíam fazia muito tempo. Tive de limpar o quarto, reorganizar os armários, separar a roupa, tirar a poeira das pelúcias, antes de começar a faxina mais difícil da vida de qualquer pessoa: a de dentro. Sabia que a qualquer esquina que dobrasse, não seria mais a mesma. Algumas tristezas apertavam, novas paranoias pularam na minha mala - mas quem nunca teve problemas de excesso de peso nos aeroportos de si mesmo?
           Estou em jornada pela leveza, convivendo com o ruim de tudo isso, sabendo que jamais serei a mesma - que jamais seremos os mesmos - e dois caminhos podem ser seguidos do nosso ponto de partida. Ganhei fardos que, com o passar do tempo, vou jogando fora, pouco a pouco, porque vão ter de expirar a validade, eventualmente. Levo também sorrisos que já não sorria há muito tempo, tirei de mim as dependências que me ancoravam em portos tristes, e tento me livrar de alguns vícios. Reorganizei a mala da alma da forma como minha mãe me ensinou a guardar a bagagem: o que for pesado se põe embaixo, o que for leve, em cima. O que for frágil, guardo com cuidado e, por isso, enrolei o coração nas roupas da pele.
           Estar dentro de mim foi sempre uma jornada incessante, e não há outro corpo que possa habitar que não o meu. Aliás, estar em sincronia com os outros corpos também exige estar em sincronia comigo mesma - com minhas bobagens, com meus monstros, com minhas quimeras, com minha leveza - e eu sempre tive a necessidade de arrumar minha própria casa, para impedir tiques nervosos e os malditos cupins, destruidores de minhas histórias mais bonitas. Aceitar as coisas que não posso mudar está no meu mapa, mas encontro também o objetivo de mudar o que em mim pode aceitar as coisas - melhorar, sempre. Prometi a mim mesma que deixaria os vasos brilhantes, com os pratinhos coloridos, para me enfeitar de flores, que sorrirão pro Sol tanto quanto eu mesma.
           Eu sei, é claro, que mudar dói, às vezes, e traz saudade daquela comida de casa, do tempero do passado, de colos quentinhos. Que as paredes brancas dos apartamentos novos e inóspitos desesperam pela falta de cor nos dias. Mas afinal, reinventar a si mesmo e recomeçar a si próprio pode ser tão libertador quanto a parede em branco e, talvez, eu possa aprender a me pintar de tantas cores mais, algumas antes desconhecidas (por que não gingerline?). No final das contas, levo no bolso uma passagem só de ida - nunca fui muito boa com voltas - e olhar para trás nunca foi opção.



Amanda F.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bobagens.





               Sou boba - e não, não descobri isso recentemente. Também não me desespero com isso, nem sequer acho ruim. Acho que a bobagem tem seu próprio charme. Sou boba porque gosto de coisas tão simples que parece mentira - não tem presente mais bonito no mundo pra mim do que uma carta escrita à mão, toda alma e coração; um lindo caderno em branco; uma caneta singular para escrever textos; caixinhas; a possibilidade de um dia na praia; uma declaração; um passeio de carro com as mãos enlaçadas nas dele; um livro; um filme; uma viagem; um petit gateau dividido por duas colheres.
              Não tem tarde mais bonita do que aquela em que posso ficar deitada, completamente encolhida, no colo de quem eu amo, vendo um filme divertido, enfiando a mão cheia no balde de pipoca, e fingindo, convincentemente, que fiquei chateada porque ele comeu o triplo que eu, embora eu não quisesse mais. Também amo pouquíssimas coisas na vida tanto quanto amo dormir com o despertador desligado; ouvir que alguém me ama; ver quem eu amo me observando em silêncio com um sorriso no rosto; fazer alguém sorrir; acreditar no amor; andar descalça na areia da praia (julgo triste, em silêncio, quem não tira as sandálias para sentir a areia dourada entre os dedos dos pés); colocar o corpo na água (nem que seja só a pontinha dos dedos); pular ondas; sentir o gosto do mar na boca; não me importar em me molhar na chuva;  ver as pessoas passando lá embaixo, do alto da varanda de um prédio; ver o céu; passar as mãos pelos livros de uma livraria; sentir o cheiro do papel; receber o carinho de alguém.
               Aliás, sou extremamente boba por preferir o carinho sincero de uma abraço macio e quentinho, cafuné, jogos de tabuleiro, dedos das mãos percorrendo minha coluna e fazendo nós no meu cabelo dourado, beijos que preenchem qualquer vazio no peito e mãos dadas em tardes de segundas, terças, sextas - do que sair todos os finais de semana com pessoas diferentes, experimentando tão somente corpos, bocas, toques - tudo sem qualquer sentimento e, portanto, sentido. Minha bobagem me permite ser tão inteira sozinha que nada no mundo me obrigaria a ficar com outra pessoa que não o simples fato de amá-la com cada centímetro do meu corpo. Isso me destrói devagarinho, às vezes, mas sempre passa, e eu gosto de acreditar que o desapego também ensina, e que o amor, que transbordo ao mundo, volta em coisas lindas.
               Além disso, ela também me lembra que amo demais, demais, aprender. Qualquer coisa. Amo o conhecimento, fotos, histórias, contos, máquinas fotográficas, vento, Sol, jantar à luz de velas, música, poesia, arte, cheiro de cinema, peônias, blues. Ela me permite ficar feliz tão rápido quanto fico triste, me proíbe de ser ruim demais com qualquer pessoa, de negar um favor, de não ouvir qualquer tristeza. Eu sou dessas pessoas que detém urgência em ajudar o próximo, que chora com o choro alheio, que abraça pra se despedir, que sente saudades de casa de vó, que empresta um pouquinho da alma, que ama dar presentes, que sente muita saudade de tudo, que chora sorrindo e sorri chorando.
               No final das contas, tinha esquecido de tanta, tanta coisa (boba) sobre mim mesma, na conturbação dos dias, na rotina louca - que não era a minha, porque eu, em geral, não vejo nada de ruim nela, quando o cotidiano é bom. Tinha perdido o tato e a vontade de escrever. Tinha desfolhado por aí e entristecido com a falta de amor e de carinho nos meus dias. Ando em processo de redescoberta de mim mesma e das pequenas felicidades que me cercam, todos os dias, pra nunca mais perder a vontade de ser quem eu sou ou de vestir o corpo que visto, porque a minha mais antiga bobagem me deu uns tapas e disse que acordasse do pesadelo e que deixasse que a vida seguisse - a bobagem que me recorda, todos os dias, que, dentre as minhas melhores manias, mora a de querer ser feliz. Sempre.

Amanda F.



Fotos: Dele e Dela

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Prosa de dar adeus.

     Se tu soubesses que sussurro baixinho aos sete ventos, quase todos os dias, para que o acaso te guarde bem. Que peço à noite que fiques feliz, que tenhas amor, que encontres alguém que te proteja como um dia eu protegi, e que te queira bem, como ainda te quero. Alguém que não decepciones nunca, e que nunca te decepcione. Se tu soubesses como sinto muito que os dias andem tão vorazes, que nunca tive gana ou coragem para parar meu tempo, e te entregar um final ou uma resolução qualquer, ou para te explicar que parei de falar contigo para não me machucar e para não criar um machucado a mais no teu peito, no intuito de que encontres qualquer motivo fútil que poderia explicar a minha ida - para que nunca tenhas de ouvir de mim o que sei, ou as verdades que guardei para mim. Mas que, mesmo assim, ainda te quero bem.
     Desejo a ti colo, amor, carinho - todas as coisas que sei que procuras em todo mundo, e que mereces - já disse tantas vezes - porque antes de tudo tens alegria na alma, na cara, no raio-x, acompanhada de um dos sorrisos mais bonitos do mundo. Às vezes, queria ser dessas pessoas que não se desiludem por qualquer coisa, que não perdem a confiança por qualquer razão, que não entristecem em qualquer noite de quarta-feira, engolida e digerida por toda a saudade do mundo - uma dessas pessoas que conseguem seguir em frente da mesma forma, ignorando uma curva brusca no caminho. Apesar de tudo, queria que soubesses que todos os teus segredos ainda estão seguros comigo, porque não os disse a ninguém.
     Por fim - se ele houver - quero te dedicar essa prosa de dar adeus, que escorre saudade a cada curva, que foi escrita toda alma e coração, por todos os dias que só tu estiveste lá, por todo o amor que cabia dentro do teu abraço, por todas os risos que só mostrava a ti. Então tatuo em mim, a partir de agora, aquele que conheci, e me faço, desde já, alguém que tu costumavas conhecer. Dedico a ti essa prosa: sem foto, sem flores, sem nada. Só adeus.


Amanda F.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Vem me escrever comigo.



  Quero te convidar a escrever comigo. Vem? Vamos escrever palavras lindas e sinceras sobre as torturas do dia-a-dia, a falta de amor nas pessoas, a fluidez dos relacionamentos, as rapidinhas necessárias que se refletem na falta de tempo dos corpos. Vamos poetizar o cotidiano, meu bem. Vamos pintar de tinta azul o caderno antigo, falando sobre o que realmente importa, que não é a crise do petróleo, as explosões de chechenos, islamitas, norte-coreanos...não, amor, vamos falar do Sol. De como ele fica lindo quando bate nos teus olhos e cria a vida ao nosso redor. Vamos conversar sobre desilusões amorosas, sobre o que Carpinejar chamou de furacão tropical.
  Quero te convidar a me escrever comigo. A cada página do meu caderno uma história nova, a cada curva do meu corpo uma palavra ou duas. Não é assim que funciona? Eu com olhos de água e dedos de tinta e tu com os olhos em mim, me escrevendo comigo. Vem? Quero te fazer poeta sem que saibas. Não precisas saber, porque qualquer obra tua vai ser uma poesia escondida - maestria que poucos literários detém. Sutil. Afinal, hoje em dia poucas sutilezas percorrem as ruas agitadas da nossa cidade (quase) grande. 
 Mas se nada disso for possível, meu amor, pelo menos me leia. Leia sobre os planos que tenho de ir ao parque, e concluir todas as frases de Cícero, claras demais para Vagalumes Cegos. Quero que saibas sobre a insegurança que tenho, sobre meus porto-seguros que são tão somente portos, porque eu vou e venho constantemente com nova bagagem na alma. Leia como eu aprendi a voar, página por página, pelo vazio das entrelinhas que só tu vais saber decifrar. Leia, amor, pois o que eu escrevo é reflexo do que tu teceste. Porque o que lês, tu escreveste comigo, e o que vês é o que fizeste de mim.


Amanda F.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Te cuida.


Te cura primeiro, garota. Te cuida e te aconchega em quem tu és, te anima e te aninha na tua alma de águia. Te fecha as feridas, uma a uma, com band-aids coloridos, com o novo merthiolate - que já nem ele arde mais. Põe tua voz lá fora, ao som do vento, e deixa que ele leve os pensamentos ruins que engolias garganta abaixo. Rasga, garota. Rasga todas as cartas que não foram escritas e que se acumulam na tua mente, e te sente, pela primeira vez, vazia. Te esquece do mundo inteiro, te faz fênix recém-nascida. Te cobre, menina, te protege dos preconceitos dos outros, daquelas ideias todas pobres, e deixa que elas se matem, uma a uma, porta afora. Te deita no teu sofá de sonhos, te livra das dores de cabeça, te perde da loucura diária. Te adormece no colo sem horas, encolhida do Universo que gira lá fora. Mas te cura primeiro, garota, que tua tristeza não paga conta, não te acalma, não te recria - que tua tristeza te renuncia, todos os dias, de ti.


Amanda F.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A conta do analista.


Maluquices à parte, acredito cada dia mais em minha loucura. Poético, doutor? A cada dia que passa, noto cada vez mais perguntas em meus textos. Revejo e releio a mim mesma em incontáveis páginas. Noto que meu porto-seguro foi sempre só porto, jamais seguro, e que meu chão foi todo estranhamente construído em ar. Outro dia, veja bem, vi passar a sombra de alguém que poderia ter sido qualquer um, e me perguntei porque o deixei ser quem foi para mim, agora que me é tão indiferente. A cada dia que passa, questiono-me cada vez mais, ponho à prova minha própria tese. Minha insânia, melancolia, neurastenia - minha loucura toda me tem, agora, por início, meio e fim. Dessa vez, preste atenção, eu estou em plena análise de mim mesma! E nunca está - ou estará, estou certa? - suficientemente bom. Ah, mania maldita de perfeição. Percebe? Encontro prisões na maquiagem que esconde o real do rosto, nos sinais vermelhos dos semáforos, nos bilhetes de estacionamento do shopping. Encontro catracas em meus próprios textos. Faz sentido? Ando me perguntando muito isso, ultimamente. Que será, doutor? Que será que se encontra  dentro de mim que sorri tão voraz enquanto digo tudo isso? Que será que rasga? Porque jamais os versos do garoto que ia mudar o mundo me soaram tão vívidos, meu caro. Estou aqui agora, vê? E também estou aqui pra pagar a conta, doutor - estou aqui pra nunca mais ter que saber quem eu sou.

Amanda F.


Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais ter que saber que eu sou!
Ah, saber quem eu sou...
(Cazuza)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conturbados sentidos.


Vai haver alguém, um dia, que sinta por mim a conturbação que eu sinto, eventualmente, por você. Feito maresia. Desfaço-me toda em água, construo-me toda instável, por você. Faz sentido? Tenho ciúme de passados presentes, de presentes que almejam futuros e de futuros sem mim. Tenho uma inquietação insana na qual navegam minhas artérias, músculos, veias, pensamentos, órgãos e devaneios. Faz sentido? Minha quimera misantropa mergulha nela. Rasga-me inteira por você. Meu exterior sucumbe aos olhares alheios e o nosso sofá-de-nós-dois abre espaço pra uma, duas, três, centenas de infinitas pessoas. Faz sentido? Irrompem-se poréns, mas, porquês, comos, enfins, entretantos, nos risos lúdicos de nós dois.
Não.
A gente não faz sentido, amor.
A gente faz sentir.

Amanda F.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Hermeneuta da madrugada


Hoje ela acordou um pouco tarde, em seu relógio amanhecido, e olhou o céu distante. Ritmo de todas as manhãs, madrugadas estreladas, luas furta-cor. A sala ainda estava vazia, a estante de livros bagunçada, o silêncio inteiro gritando lá fora e, por dentro, a mente barulhenta de sempre. Ouviu, distante, seus ecos, vislumbres, devaneios - uns sonhos de noite, solitude inquieta. Pensou que a maioria das pessoas não tem o prazer de observar o céu - "devem ser todas tristes, pobrezinhas". Lá fora a tempestuosa madrugada negra gritava por ela e por suas danças de lua. Como quem jamais amou ou ama o tempo inteiro, ela ainda transbordava ao abrir a porta, ao enxergar o alto. O infinito inteiro sobre ela, o infinito inteiro pele adentro - sabia disso e sempre soube. Sorriu antecipando passos, colocou os pés na água, sentiu o vento - tradição muda, relíquias da infância. Pensou que talvez ela fosse mesmo estranha, afastada dos outros...mas acontece que ela só era ela com os pés na água, com o corpo mudo, a mente barulhenta, o mundo de soslaio, e os olhos fitando o céu. Ela só era ela ali, sabendo que o Sol surgiria em breve, e que o "bom dia" mais próximo calaria sua mente e a faria abrir a boca, até que ela pudesse voltar a ser ela de novo, nas noites suas de todos os dias; uma hermeneuta da madrugada - seu ritual pessoal - toda vida traduzindo estrelas.

Amanda F.

domingo, 8 de abril de 2012

Feito marinheiro.


Me deixe partir, feito marinheiro. Mas, se não for pedir demais, quando eu chegar, seja meu porto, e, com toda alma e pompa, me peça para ficar. E aí, quem sabe, eu fico.
E aí, você sabe - eu fico.

Amanda F.

segunda-feira, 26 de março de 2012

De carne e osso.

Eu não conheço o ideal de amor, garoto. Na verdade, não me interessa, nem sequer interessou. Não me atrai a utopia de Romeu e Julieta: eles jamais provaram a companhia um do outro em noites de verão, nem sequer passaram por uma briga típica dos casais mais apaixonados e explosivos. Eles não conheceram as manias um do outro, os defeitos, os detalhes, as curvas do corpo. Não os invejo, não tenho compaixão alguma por eles.
Não sou platônica, garoto, eu sou mulher. 
Portanto, não me venha com as mesmas coisas de sempre, garoto, por achar que sou doce, boba, ingênua. Confie em mim: até mesmo as mais vadias possuem as vestes das santas, no armário da fantasia. Não me diz que faria tudo por mim, vou enjoar de você nas primeiras 24 horas. Não vem dizer o que acha que quero ouvir - vou rir de você quando não estiver ouvindo, divertir-me em espasmos involuntários quando virar de costas.
Eu gosto mesmo é do contrário.
Não me descasque - sou dura. Não me interprete - sou torpe. Deixe-me ser todinha minha, e não sua, porque a sua maior conquista vai ser quando eu, em uma tarde banal qualquer, olhá-lo nos olhos e descobrir que eu já me perdi de mim faz tempo, e nem dei por falta, nem fiz queixa de sequestro, nem ficha de desaparecimento na polícia.
Não ache que me conhece, vou querer desafiá-lo, e, acredite, vou ganhar. Ache graça das coisas simples, ache graça de mim, e, principalmente, ache graça comigo. Não costumo dar gargalhadas boas ou sorrisos bobos a não ser que seja real, e a realidade, garoto, é muito mais atraente do que qualquer ideal de corpo.
Ah, e por favor, cortesias me cansam, e cantadas vão me fazer querer ridicularizar você. Seja você, seja teimoso, seja tonto, seja errado. Perfeição me dá nos nervos, garoto, e o ceticismo vai me forçar a zombar da sua pompa, assim que julgar me ter nas mãos.
Então, garoto, não gaste nosso tempo. Olhe pra mim. Aprende a ser cafajeste do jeito certo. Jamais vou levá-lo a sério, e você, por favor, leve-me à toa. Assim, aos poucos, numa boa, a gente pode, quem sabe, descobrir o que é amar?

Amanda F.

sábado, 24 de março de 2012

Flamma.


Abraça-me. Aquece-me. Faça-nos queimar. Cada veia, cada pulso, cada gota de sangue que nos atrasa - queime tudo, renasça. É pelo fogo que a natureza se renova, é pelo corpo que nos faremos fênix. Não se extinga no calor humano: traga a chama, traga as supernovas, exploda o Sol em mim feito chuva tórrida em tarde quente. Seja eterno, seja incandescência - cubra cada milímetro do meu corpo em chama, que é na iminência do fogo que vamos nos encontrar. E abraça-me - abrasa-me.

Amanda F.

domingo, 18 de março de 2012

Alquimista.


Já não aguentava mais. Há tanto não aguentava mais aquela prisão constante.
Alquimista libertina, sedenta por ar e sonhos.
"Há de haver um jeito!", gritava aos bêbados, aventureiros, viajantes. "Um portal, um elixir, uma chave. Talvez um caminho perdido...
Há de haver um jeito de sair de dentro de mim."

Amanda F.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Paradoxal.


Todos somos paradoxos,  
buscando o porquê da existência, 
quando a nossa real tendência 
é a nulidade.

Amanda F.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mentirosa.

Sou escritora, e, portanto, mentirosa. 
Mentirosa porque sou artista, mentirosa porque crio, mentirosa porque, simples e francamente, minto. 
Minto porque não há fronteiras na minha arte, porque as palavras não possuem pontos finais, porque despersonalizo, fantasio, crio - minto mil quimeras misantropas, mil fantasias inventadas, mil e uma noites de utopia, e mil e uma faces que não visto.
Sou escritora, e, portanto, não minto idade, não minto caráter, não minto opinião. Minto realidade. Teço-a da forma que quiser ver, da forma que quiser ser lida, e da forma que quiser ver despida.
Minto porque faço da sua realidade a minha mentira.
Minto descaradamente quem sou somente fora das palavras, fora do papel - fora das letras, canetas, e folhas rabiscadas. Minto quem sou apenas quando não escrevo, porque o que sou é um jogo de palavras andante; fantásticas palavras pulsantes que visto ao me fantasiar.
Sou escritora, e, portanto, minha única verdade é também minha maior mentira.


Amanda F.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Instantânea.

Serei sempre dessas garotas que querem fazer mais do que os 365 dias de um ano podem suportar. Vou pedir de você mais do que pode me dar, vou querer acumular mais memórias do que posso formar. Neurastênica? Vulcânica. Vou pesquisar minúcias em planos cobertos de nada, vou procurar filmes que não chegaram ao cinema, vou comprar páginas e mais páginas em branco, que jamais serão escritas. Emergencial, iminente. Vou querer tudo na hora, vou gostar e desgostar em rompantes rasgantes de tempo. Vou querer trocar, sonhar, estourar em milésimos segundos. Vou matar meus próprios sonhos para reconstruir o triplo sobre os mortos, como uma fênix cancerosa. Vou sempre planejar demais, entenda. Serei sempre como o livro interrompido cuja continuação não chegou à livraria, e nem chegará. Porque vou começar o interminável e me entendiar com o finito, o tempo todo, infinitas vezes - solúvel ao ar, diluída ao tempo. Instantânea. E quando você perceber, já terei partido, antes mesmo de chegar.

Amanda F.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Como dois estranhos.


25/4/2011 22:21:22 Eu sou no mínimo tudo o que você não pediu. E tudo o que você precisa, e não sabe.

Amanda F.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fly away.

Já moldei a mim mesma incontáveis vezes a outras pessoas mais. Já me preocupei demais por listas, e fotos, e casos, e pessoas, e festas, e ficas, e fatos. Quebrei minha redoma de vidro, garota. Já não aguentava mais invejar aos pássaros. E se 2012 não for fim do mundo, querida, acredite: é o início do meu.


Amanda F.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Se for pra ser você, corre e vem ser.

"Vem alterar meus dias, vem fazer eles serem estranhamente mais curtos com a tua presença. Transforma tudo em risada, faz com que eu me sinta mais leve. Vem e bagunça tudo agora, faz eu me sentir boba por pensar em você. Não tenho a pretensão de te ter a vida inteira, só deveríamos ser nós agora. O amanhã é tão incerto. Mas acalma, o amanhã será o nosso agora também, o amanhã não existe! Tenho uma urgência em mim que não permite mais que a vida seja branda. Então, se for pra ser você, corre e vem ser." Tânia F.

"Se for pra ser você, corre e arrebente as portas. Quebre as janelas da minha pele, entre na minha vida, mostre que ela é sua, assim como sua sou eu, que julgava ser toda minha. Entregue a chave da minha gaiola, liberte-me, voe comigo. Se for pra ser você, não precisa chegar de cavalo branco, buquê de flores ou sorriso azul. Só me olhe, e me dê uma resposta com os olhos, se puder. Corre, e vem ser. Aliás, deixe de venha ser. Venha, e mostre que é." Amanda F.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Time machine girl.

Hoje decidi que vou deixar você me conhecer. Que vou ficar sabendo sobre você sem a sua permissão. Que vou ser transparente. Vou deixar que perceba como sou complicada e azeda, e como sou simples e doce. Mostrar meus defeitos, nos provar humanas. Sim, porque somos parecidas. Engraçado o não-amor me fazer querer conhecer você. O que aprendi, quero mostrar. O que sei, quero ensinar. Não sei, há algo em mim que tem pressa, mas, por alguma razão, esse algo em mim encontrou uma calma agora que a conheço. Acontece que eu sei que tenho tanto a aprender com você! É por ver muito de mim em você que quero permití-la ver o futuro, para, em troca, corrigir um pouco o passado.


Amanda F.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Misantropa quimera.

Há uma criatura em mim que é triste. Ela simplesmente existe e me habita.
Parece-me antiga, arrastada. Parece-me externa a mim, mas ao mesmo tempo tão intrínseca a quem sou.
Vez ou outra, minha quimera vence e me engole. Outras vezes mais, faço-a me vomitar e corro em direção à qualquer indício de vento que me faça feliz.
Mas ela nunca me deixa ir embora por completo.
Ela nunca deixa de ficar mais um pouquinho.


Amanda F.