Nós somos Marias, Amandas, Marianas, Julianas, Anas, Marílias, Fátimas, Jéssicas, Brunas, Biancas, Carolinas. Nós somos as Helenas de Manoel Carlos, as Daenerys de George Martin. Somos a moça que anda depressa na avenida movimentada, porque um carro suspeito nos segue – o motorista é homem, e parece querer falar conosco. Somos a moça que deve andar o mais coberta possível, porque o homem se tocando no final do ônibus, olhando-nos insistentemente, faz isso porque estamos de saias.
Somos aquelas que devem estar sempre belas, sempre em forma, sempre de dieta, sempre Pugliesi – que droga de estrias e celulites, a quem pagaremos para remover? Somos Ninas, somos Beyoncés, somos Carol Konká, somos Marta, somos Amy. Somos pretas, brancas, ricas, pobres, magras, gordas, altas, baixas. Somos a moça que se suicidou semana passada porque um cara qualquer vazou um vídeo de sexo – eu falei sexo? Mil perdões. Somos a moça que não pode transar, ter desejos sexuais e falar sobre sexo. Não podemos falar de sexo – mas nosso corpo consiste no mercado que o move.
Somos a mulher casada traída pelo marido – ele volta tarde, mente quase sempre, mas a raiva é da amante; a culpa é toda dela, a destruidora de lares da história perfeita. Somos a amante, a amiga, a que desperta ciúmes em Marias, Amandas, Marianas, Julianas, Anas, Marílias, Fátimas, Jéssicas, Brunas, Biancas, Carolinas.
Somos a moça que pediu demissão porque o chefe sentiu-se no direito de nos assediar - contratou-nos para isso.
Somos a única princesa do filme, em busca de um único príncipe encantado, prontas para pisar na vilã inimiga. Somos Malévola, somos Vênus, somos Olga, somos Amelia, somos Arya. Como em um romance, somos Lily Braun. Somos a moça que é "diferente das demais", somos as que devem preferir os amigos homens. Somos Susie, somos Polly, somos Barbie. Não somos? Achava que éramos. De plástico? Não.
Não somos.
Não somos.
Somos Vitórias, Luízas, Fernandas, Júlias, Giovanas, Natálias. Somos a mãe culpada por não ter tempo de estar presente ao final do expediente, por chegar tarde, por trabalhar dois turnos. Somos mães – temos de ser mães, nosso papel na vida consiste em sermos mães. Somos as que cuidam, as que carregam o peso da gravidez – peso? Não. Perdão. Somos as que devem pedir perdão – não cabe a nós o egoísmo.
Somos donas-de-casa, costureiras, pedreiras, motoristas, baristas, advogadas, juízas, juristas, procuradoras, modelos, misses, engenheiras, professoras, mães, escritoras, empresárias, políticas, fotógrafas, estilistas, publicitárias, dançarinas, ginastas, jornalistas, estudantes, antropólogas, matemáticas, arquitetas, programadoras, jogadoras de futebol.
Somos tudo o que quisermos ser e, no fim, somos mais que tudo isso.
Somos mulher.
Em tempo: o presente texto foi escrito após a leitura da seguinte reportagem, disponibilizada neste site: http://www.vice.com/pt_br/read/sessao-tortura-talaricagem. Acredito que temos um mundo de opressões em comum e, com lágrimas nos olhos, passei meu sentimento às pontas dos dedos. Havia de digitar.
Amanda H. Ferreira.
Mulher.