domingo, 25 de abril de 2010

Tempo Primordial.

Eu queria um tempo em que eu pudesse ser ninguém.
Eu queria um tempo em que pudesse transpor quem eu sou.
Tomar um tempo, foder com ele. Fazer todas as coisas do mundo, na esperança de esquecer depois. Talvez. Ousar de toda luxúria, toda volúpia, todo pecado, todo mártir. Beber de todo o elixir da culpa, discórdia, prazer.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse ser feliz um dia inteiro, na íntegra.
Fazer coisas estúpidas, passar um dia banhada em nada, sentir o vento, falar besteira. Esquecer-te um pouco. Talvez. Causar toda a idiotice plausível, imaginável, desejável. Coisas bestas. Beber da fonte mais pura da insanidade, desta vez causada pelo choque de tão elevado nível de alegria.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse morrer.
Sentir toda a tristeza que pudesse penetrar em meus poros, um dia. Sofrer como ninguém nunca sofrera antes, aprender a aguentar a alma misantropa, desgastada, inútil. Sofrida. Morrer em vida. Talvez. Sanar todo o tipo de dor menor esquecida, arrancar feridas antigas. Deixar sangrar.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse nascer de novo.
Livre do lixo da amargura, do descrer humano. Apagar. Esquecer. Morrer. Nascer.
Eu queria ser Fênix, ser Urano, ser Júpiter, ser Cronos.
Eu queria ser uma morta renascida. Eu não queria ser essa morta viva.
Tão cronometrada. Tão indisposta. Tão presa ao tempo. Tão repetitiva. Tão gasta.

Eu queria ter um tempo em branco, esquecimento. Um tempo em que fosse tomada da ignorância. Queria viver todos os sentimentos do mundo. E esquecer.

Começar a redijir uma folha em branco, sem marcas, sem direção, sem memória, tão mais brilhante do que a que estava apagada.

Amanda F.

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