domingo, 24 de maio de 2015

O dia em que liguei o foda-se.


    Há algum tempo, escrevi sobre filhos-da-puta didáticos. "Se não fosse por eles", dizia, "não seríamos as mais filhas-das-putas das mulheres: dominaremos o fingimento, e ganharemos pela inteligência. A arte da conquista."
         Nunca estive tão certa.
     Não, nunca fiz o estilo manipuladora e, acredite-me, tenho extrema apatia por pessoas (leia-se homens ou mulheres) canalhas - não me seduzem os joguinhos, não me chamam atenção os assuntos fúteis e tenho preguiça sincera das cantadas. Não, eu gosto mesmo do que é de verdade. Gosto mesmo de quem me contradiz, quem me adiciona, quem me faz pensar, quem me bagunça. Eu gosto mesmo é das cicatrizes na pele, das histórias dos olhos, de entrar na casa bagunçada que é o coração de alguém - há tempos o meu tem sido, ao menos.
          Acontece que, percebo agora, todo mundo precisa - perdoem-me o francês, os mais sensíveis - ligar o foda-se, vez ou outra na vida. Sim, porque nem todo mundo é de verdade. E eu, que sempre tive o coração aberto, resolvi ser um pouquinho egoísta e trancá-lo à chave - os poucos que sabem cuidar da casa tem sua própria cópia. Resolvi viver um pouco da superfluidade de corpos e baladas lúdicas, vestir faces de mim que há tanto não visto, viver fases de não ser de ninguém, deixar estourar a cinta-liga, enlouquecer enquanto há tempo.
          Tenho plena consciência de que haverá alguém, um dia, que vai entrar pela janela. Que vai conhecer os caminhos para burlar minhas fechaduras. Alguém que vai me convencer a ficar - vai dizer que tem brownie guardado, coca-cola na geladeira, minha série preferida na tv e alguns abraços quentes embaixo do edredom. "Alguéns" que eu terei de convencer a ir embora. Sei que experimentarei, também, doces deletérios - alguns mais azedos que outros - e que provavelmente não terei lembrança alguma de alguns sábados à noite. Mas já era hora de me libertar de tanto pesar e, quem sabe, sair dessa areia movediça.
          Acho que liguei o foda-se. É tempo de fechar alguns ciclos. E agora é a hora do vamos ser.

Amanda F.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

"Cresci", disse a menina.

               (...)
               Havia algumas madrugadas em crises de pânico, noites mal dormidas - claro que havia.
               Havia momentos em que ela acordava - ou dormia - aos prantos, na certeza de ter perdido para a vida - ou pelo menos de ter perdido tantas partes, dela mesma, no passar dos últimos anos.
               Havia também aquela incapacidade infantil de medir o mundo, tão absurdamente enorme do outro lado da porta, muito embora, da infância, só tenha sobrado essa noção de quão diminuta ela era diante do Universo lá fora - e ela sabia disso.
               Já não tinha mais o conforto de abraços quentinhos, que pareciam tão maiores e acalentadores do que realmente eram, nas primaveras passadas. Não tinha mais a magia de que algum dia viveria na pele de um personagem fantástico de algum livro de aventuras. Não restou mais a certeza de que os adultos sabiam - e sempre saberiam - de tudo, porque eles tinham aquela incrível certeza de que não havia monstro algum debaixo da cama.
               Não.
               Na verdade, ela sabia que, na manhã seguinte, teria de trabalhar. Que teria de estudar muito para se tornar quem gostaria de ser na vida. Que estudaria muito. Na manhã seguinte, ela sabia que tinha de sair de casa com a armadura arranhada na pele, de tantas batalhas cotidianas - que chegaria exausta em casa no começo da madrugada e, ainda assim, não dormiria, porque as preocupações de ontem, de hoje e de amanhã irromperiam pele adentro - e ela também sabia disso.
               Na manhã seguinte, várias mulheres teriam sido vítimas de seus bichos-papão, e não daqueles que viviam embaixo da cama - e ela sabia disso. Muitos morreriam de fome. Muitos mais morreriam, como os pedaços infantis dela foram morrendo, aos poucos, no decorrer da própria vida.
               Já não era aquela menina indefesa de tempos atrás.
               Já não era a menina que foi.
               Trazia consigo uma bagagem pesada, malhas cerzidas, dias gris. Trazia também algumas alegrias todas dela, conquistas de um cotidiano maduro e, como tal, permeado de incertezas lancinantes e de desafios ainda maiores - já escrevera Martha Medeiros, "mulherão é quem mata um leão por dia". E ela era. E ela sabia.
               Não houve, contudo, o dia em que ela olhou para trás e percebeu quantas fantasias tinham ficado lá. Quantos amores não a amaram de verdade. Quantas vezes morreu por dentro. Não houve o dia em que percebeu que tinha criado garras nos dedos e asas nas costas. Mas houve o dia em que olhei nos olhos dela - o dia em que ela me dizia que crescer dói.
               "Cresci", disse a menina.
               Agora ela era pássaro. E fênix. E cinzas.

Amanda F.