sábado, 20 de março de 2010

Nada utilitário à alguém.

Não escrevo agora, neste exato momento, com estas mesmas palavras, nada útil à ninguém.

Não me escrevo pelo prazer do escrever, ou para soar bem à alguém. Não me escrevo por nada mais que não a covardia, perdida no medo do gritar - e no medo do silêncio.
Escrevo sem esperar que algo seja modificado nesta vida seca que estou vivendo, ou na intenção de provocar algum arrebatador sentimento, no âmago destes mesmos olhos vazios que agora estão serpenteando dentre este texto, lendo este esboço sem a mínima atenção real.
Escrevo na esperança de parar de chorar.
Parar de tremer de frio - uma sensação estranha que não me deixa gelada, não me deixa desejosa por calor. Só uma sensação de falta de energia, da falta de transição da necessidade humana por algo que acalente.
Escrevo para parar de tremer.
Na hipocrisia de gostar de letras, estruturas e palavras, escrevo para usá-las. Não quero aumentar qualquer espécie de sentimento alheio, não me importo em causar empatia. Não preciso, agora, escrever bonito. Eu posso escrever nestas linhas tortas, com estas letras garranchudas, porque eu só quero gritar, respirar com a pulsação normal, escrever até que esta mancha líquida, escorrida sobre a minha face, seque, só até que meus olhos murchem, e o tom avermelhado, das maçãs do rosto, sumam. Aí, direi-lhes que estou sonolenta, mais uma vez falsa.
Mas agora não preciso escrever ou falar nada real, nada bonito, embora minha realidade esteja momentâneamente feia, não quero mudar meu mundo, só quero que meu coração pare de pulsar assim, e que o silêncio que me cerca, também faça perder-me em minhas próprias palavras, nesta explosão errônea, rápida e mal-feita, em tinta.
Nada mais encaixa-se como antes. A última coisa de que quero recordar-me não é um beijo lúdico. Torto. Só não quero lembrar de nada.
Doem-me os nós dos dedos, e, em breve, alguém mal informado da vida alheia irromperá cômodo adentro, e talvez este alguém não me perceba, corcunda sobre esta folha de papel. Talvez pareça só mais alguém que não escreve na esperança de que algo mudará. Talvez. Não por agora.
Mas avisei que não escreveria nada útil à ninguém.

Amanda F.


18.03.2010
18:15

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