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sábado, 6 de março de 2010

Vida interna.

Ela, que vive a vida toda para dentro, que não percebe a necessidade humana e social de se encaixar. Ela, que por mais tempo esteve sozinha, e que não se importou nenhum pouco com isso. Ela, que se tranca no banheiro para dividir a própria ausência, a própria companhia, e para observar a silhueta conhecida, a sua silhueta de sempre, tatuada na parede branca do pequeno espaço. Que senta na tampa do sanitário, descansa os cotovelos nos joelhos, e o rosto nas mãos, encolhida, com a chave da entrada trancada enroscada entre seus dedos, apenas para que ninguém bata na porta ou irrompa no cômodo.
Ela, que aprendeu a escrever, para não ter de falar, e que procurou viver tanto a solidão prazerosamente. Que caminha nas ruas cedo demais ou tarde demais, apenas para não ter de ver carros, pessoas, bicicletas ou animais, dividindo a mesma visão e o mesmo percurso que ela.
Ela, que ouve aos próprios pensamentos mais do que a vozes alheias, que escuta música nos fones, mesmo sozinha, para não dividir a melodia a lugar algum mais que aos próprios tímpanos.
Ela, que sem querer fecha-se, talvez pela noção clara da própria antipatia, ou talvez pela noção que criou dela.
Ela, que daria tudo para caminhar na praia no pôr-do-sol, sem companhia alguma, sem barulho algum, sem visão alguma...sem ter qualquer coisa que seja, que não o barulho da fricção de grãos da areia, do mar tão solitário e tão bonito - do mar homogêneo, que esconde tamanha diversidade internamente. Ela que lê livros, que passa férias de inverno e de verão diante ao ecrã de um computador, sem necessitar de beijos, abraços ou telefonemas.
Ela, que vive a vida internamente, ainda assusta-se sempre que percebe o quão incessantemente - e estranhamente - ela depende de você.

Amanda F.

"Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo."
(caio fernando abreu)