quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Embarque imediato.


           "Um belo dia resolvi mudar", cantava Rita Lee, em uma terça-feira qualquer, naquele antigo rádio, enquanto eu sorria do outro lado dos alto-falantes. Fazer tudo que eu queria fazer. Havia retirado a bagagem da alma e prometido a mim mesma que viajaria dentro de mim. Reorganizando as prioridades, limpando a matéria cerzida e gasta dentro do peito, porque bagagem demais pesa, e minhas pernas já doíam fazia muito tempo. Tive de limpar o quarto, reorganizar os armários, separar a roupa, tirar a poeira das pelúcias, antes de começar a faxina mais difícil da vida de qualquer pessoa: a de dentro. Sabia que a qualquer esquina que dobrasse, não seria mais a mesma. Algumas tristezas apertavam, novas paranoias pularam na minha mala - mas quem nunca teve problemas de excesso de peso nos aeroportos de si mesmo?
           Estou em jornada pela leveza, convivendo com o ruim de tudo isso, sabendo que jamais serei a mesma - que jamais seremos os mesmos - e dois caminhos podem ser seguidos do nosso ponto de partida. Ganhei fardos que, com o passar do tempo, vou jogando fora, pouco a pouco, porque vão ter de expirar a validade, eventualmente. Levo também sorrisos que já não sorria há muito tempo, tirei de mim as dependências que me ancoravam em portos tristes, e tento me livrar de alguns vícios. Reorganizei a mala da alma da forma como minha mãe me ensinou a guardar a bagagem: o que for pesado se põe embaixo, o que for leve, em cima. O que for frágil, guardo com cuidado e, por isso, enrolei o coração nas roupas da pele.
           Estar dentro de mim foi sempre uma jornada incessante, e não há outro corpo que possa habitar que não o meu. Aliás, estar em sincronia com os outros corpos também exige estar em sincronia comigo mesma - com minhas bobagens, com meus monstros, com minhas quimeras, com minha leveza - e eu sempre tive a necessidade de arrumar minha própria casa, para impedir tiques nervosos e os malditos cupins, destruidores de minhas histórias mais bonitas. Aceitar as coisas que não posso mudar está no meu mapa, mas encontro também o objetivo de mudar o que em mim pode aceitar as coisas - melhorar, sempre. Prometi a mim mesma que deixaria os vasos brilhantes, com os pratinhos coloridos, para me enfeitar de flores, que sorrirão pro Sol tanto quanto eu mesma.
           Eu sei, é claro, que mudar dói, às vezes, e traz saudade daquela comida de casa, do tempero do passado, de colos quentinhos. Que as paredes brancas dos apartamentos novos e inóspitos desesperam pela falta de cor nos dias. Mas afinal, reinventar a si mesmo e recomeçar a si próprio pode ser tão libertador quanto a parede em branco e, talvez, eu possa aprender a me pintar de tantas cores mais, algumas antes desconhecidas (por que não gingerline?). No final das contas, levo no bolso uma passagem só de ida - nunca fui muito boa com voltas - e olhar para trás nunca foi opção.



Amanda F.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bobagens.





               Sou boba - e não, não descobri isso recentemente. Também não me desespero com isso, nem sequer acho ruim. Acho que a bobagem tem seu próprio charme. Sou boba porque gosto de coisas tão simples que parece mentira - não tem presente mais bonito no mundo pra mim do que uma carta escrita à mão, toda alma e coração; um lindo caderno em branco; uma caneta singular para escrever textos; caixinhas; a possibilidade de um dia na praia; uma declaração; um passeio de carro com as mãos enlaçadas nas dele; um livro; um filme; uma viagem; um petit gateau dividido por duas colheres.
              Não tem tarde mais bonita do que aquela em que posso ficar deitada, completamente encolhida, no colo de quem eu amo, vendo um filme divertido, enfiando a mão cheia no balde de pipoca, e fingindo, convincentemente, que fiquei chateada porque ele comeu o triplo que eu, embora eu não quisesse mais. Também amo pouquíssimas coisas na vida tanto quanto amo dormir com o despertador desligado; ouvir que alguém me ama; ver quem eu amo me observando em silêncio com um sorriso no rosto; fazer alguém sorrir; acreditar no amor; andar descalça na areia da praia (julgo triste, em silêncio, quem não tira as sandálias para sentir a areia dourada entre os dedos dos pés); colocar o corpo na água (nem que seja só a pontinha dos dedos); pular ondas; sentir o gosto do mar na boca; não me importar em me molhar na chuva;  ver as pessoas passando lá embaixo, do alto da varanda de um prédio; ver o céu; passar as mãos pelos livros de uma livraria; sentir o cheiro do papel; receber o carinho de alguém.
               Aliás, sou extremamente boba por preferir o carinho sincero de uma abraço macio e quentinho, cafuné, jogos de tabuleiro, dedos das mãos percorrendo minha coluna e fazendo nós no meu cabelo dourado, beijos que preenchem qualquer vazio no peito e mãos dadas em tardes de segundas, terças, sextas - do que sair todos os finais de semana com pessoas diferentes, experimentando tão somente corpos, bocas, toques - tudo sem qualquer sentimento e, portanto, sentido. Minha bobagem me permite ser tão inteira sozinha que nada no mundo me obrigaria a ficar com outra pessoa que não o simples fato de amá-la com cada centímetro do meu corpo. Isso me destrói devagarinho, às vezes, mas sempre passa, e eu gosto de acreditar que o desapego também ensina, e que o amor, que transbordo ao mundo, volta em coisas lindas.
               Além disso, ela também me lembra que amo demais, demais, aprender. Qualquer coisa. Amo o conhecimento, fotos, histórias, contos, máquinas fotográficas, vento, Sol, jantar à luz de velas, música, poesia, arte, cheiro de cinema, peônias, blues. Ela me permite ficar feliz tão rápido quanto fico triste, me proíbe de ser ruim demais com qualquer pessoa, de negar um favor, de não ouvir qualquer tristeza. Eu sou dessas pessoas que detém urgência em ajudar o próximo, que chora com o choro alheio, que abraça pra se despedir, que sente saudades de casa de vó, que empresta um pouquinho da alma, que ama dar presentes, que sente muita saudade de tudo, que chora sorrindo e sorri chorando.
               No final das contas, tinha esquecido de tanta, tanta coisa (boba) sobre mim mesma, na conturbação dos dias, na rotina louca - que não era a minha, porque eu, em geral, não vejo nada de ruim nela, quando o cotidiano é bom. Tinha perdido o tato e a vontade de escrever. Tinha desfolhado por aí e entristecido com a falta de amor e de carinho nos meus dias. Ando em processo de redescoberta de mim mesma e das pequenas felicidades que me cercam, todos os dias, pra nunca mais perder a vontade de ser quem eu sou ou de vestir o corpo que visto, porque a minha mais antiga bobagem me deu uns tapas e disse que acordasse do pesadelo e que deixasse que a vida seguisse - a bobagem que me recorda, todos os dias, que, dentre as minhas melhores manias, mora a de querer ser feliz. Sempre.

Amanda F.



Fotos: Dele e Dela