sábado, 30 de outubro de 2010

"Você não se perdeu ainda."



"E os amores de cinema?"
"Que tem eles?"
"Onde se encontram, que não me encontram?"
"Que quer dizer?"
"Onde se encontram aquelas sensações de amor explodido, imperfeito, completo, arrebatador, tácito, explícito, incrível, irracional. Onde se encontra a pessoa que me é capaz de mostrá-los?"
"Para isso há muitas respostas."
"Que respostas?"
"Os racionais diriam-te que os amores de cinema estão lá mesmo: no escuro, diante de uma tela enorme de projeção, com atores ensaiados e falas prescritas. A eles nenhum dos amores é digno de arte. Os sonhadores, entretanto, diriam-te que estão lá mesmo: no escuro, diante de você, como uma luz projetada a qual você deve observar, e amar, e sentir. A eles, todos os amores da vida são dignos de filmes."
"E por que não encontro nada?"
"É porque você não se perdeu ainda."
"Que quer dizer?"
"Quero dizer que você procura demais, e, para amar, é necessário primeiro se perder."


Amanda F.

Conhecidos.

Não se conhece ninguém, nem se é conhecido, pois só se é real sozinho. É sozinho que você usa os shorts rasgados, anda nu em casa, grita consigo mesmo, se olha no espelho, faz careta, canta com a escova de cabelo, chora no travesseiro, bate a cabeça na parede, fala consigo - e fala mesmo, às vezes grita. É sozinho que se deita na cama sem lavar os pés, que não se importa em arrumar o cabelo, a cara, a vergonha. É sozinho que se passa cremes na cara, que não se importa se há algo aparecendo, que se prende o cabelo e se joga no chão. É sozinho que se canta no banheiro, que se dança no quarto, que se lê, que se escuta músicas, que se pensa. E é sozinho que as tristezas mais sutis, as que enchem o peito em dias conturbados, escorrem em lágrimas, sem culpa. É sozinho que você chora sem se importar com mais nada, ajoelha-se no chão, irrompe em dor, e se purifica. E é sozinho que se é real.
Não, ninguém te conhece - e você não conhece a ninguém.



Amanda F.

domingo, 24 de outubro de 2010


Precisarei sempre de um porto seguro que não me atraque em solo, que não me mantenha fixo,
mas que esteja sempre lá, nos dias conturbados.
E ainda há uma vaga ao meu lado, tão disponível a todos os que se disporem
a compartilhar comigo algumas sensações, algumas quartas-feiras.
Aos que se dispoem a sentar-se e observar o mar.

É na necessidade enfadonha de manter-me perto das pessoas, que me mantenho longe.


Amanda F.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sobre a leveza.

Às vezes, tenho essas sensações de meio cheio, meio vazio. De quase bom, de quase nada. De meia alma, de meio corpo, de estar cheia, a ponto de estar vazia. Essa sensação de estar caindo, ou estar voando. A sensação do estômago borbulhando e do peito pesado. A sensação das coisas antigas, de ver a lua, de silêncio, de andar na rua, de ver as ondas. O gostinho de ir dormir e desativar o despertador, porque o mundo pode esperar você amanhã. Aquela sensação de tudo bem, meio certo, meio incompleto, meio explodido, meio contido. Todas as sensações em equilíbrio. Um tanto faz, um tudo bem. Aquela sensação de que nada importa. É aquela sensação do bigode de leite, do último raio de sol, do vento na face, da folha caindo, da onda que quebra - é aquela sensação de liberdade, de se importar com nada; sem excessos e sem pesares, prendendo a alma que meio voa, que quase escapa.

Amanda F.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Under city lights.


Acho que tenho medo de me encontrar.

Talvez a esquina errada, um dia ordinário
me achar,
escondida sob alguma sombra.

Amanda F.

Eterna criança.









Às vezes, eu me sinto aquela garotinha que engoli aos trancos, por necessidade bruta, que anda por aí dentro de mim, choramingando a urgência de um porto seguro - um forte, um castelo de areia, uma casa na árvore. Seu lugar.
Amanda F.