segunda-feira, 29 de março de 2010

Já não importa.


O engraçado, e talvez mais desesperador de tudo, é que já não me importo.
Eu simplesmente já não me importo até onde isso tudo irá chegar - o importante é que continuamos chegando.






Amanda F.

sábado, 20 de março de 2010

Nada utilitário à alguém.

Não escrevo agora, neste exato momento, com estas mesmas palavras, nada útil à ninguém.

Não me escrevo pelo prazer do escrever, ou para soar bem à alguém. Não me escrevo por nada mais que não a covardia, perdida no medo do gritar - e no medo do silêncio.
Escrevo sem esperar que algo seja modificado nesta vida seca que estou vivendo, ou na intenção de provocar algum arrebatador sentimento, no âmago destes mesmos olhos vazios que agora estão serpenteando dentre este texto, lendo este esboço sem a mínima atenção real.
Escrevo na esperança de parar de chorar.
Parar de tremer de frio - uma sensação estranha que não me deixa gelada, não me deixa desejosa por calor. Só uma sensação de falta de energia, da falta de transição da necessidade humana por algo que acalente.
Escrevo para parar de tremer.
Na hipocrisia de gostar de letras, estruturas e palavras, escrevo para usá-las. Não quero aumentar qualquer espécie de sentimento alheio, não me importo em causar empatia. Não preciso, agora, escrever bonito. Eu posso escrever nestas linhas tortas, com estas letras garranchudas, porque eu só quero gritar, respirar com a pulsação normal, escrever até que esta mancha líquida, escorrida sobre a minha face, seque, só até que meus olhos murchem, e o tom avermelhado, das maçãs do rosto, sumam. Aí, direi-lhes que estou sonolenta, mais uma vez falsa.
Mas agora não preciso escrever ou falar nada real, nada bonito, embora minha realidade esteja momentâneamente feia, não quero mudar meu mundo, só quero que meu coração pare de pulsar assim, e que o silêncio que me cerca, também faça perder-me em minhas próprias palavras, nesta explosão errônea, rápida e mal-feita, em tinta.
Nada mais encaixa-se como antes. A última coisa de que quero recordar-me não é um beijo lúdico. Torto. Só não quero lembrar de nada.
Doem-me os nós dos dedos, e, em breve, alguém mal informado da vida alheia irromperá cômodo adentro, e talvez este alguém não me perceba, corcunda sobre esta folha de papel. Talvez pareça só mais alguém que não escreve na esperança de que algo mudará. Talvez. Não por agora.
Mas avisei que não escreveria nada útil à ninguém.

Amanda F.


18.03.2010
18:15

quinta-feira, 18 de março de 2010

24 horas.


Há dias que gostaria de transpor, como que por um simples toque, no botão de "agilizar vídeo", do controle remoto. Dias estes em que o mundo parece mais pesado, confuso, incerto. Mais lastimável. Torto. Dias estes que teimam em passar lentamente, mas que possuem toda a sorte das 24 horas sequenciais para que as lágrimas caiam rapidamente, dolorosas na face. Fáceis. O nascer do sol não parece iluminar nada mais, e o anúncio do cair da noite torna gritante as 12 horas intermináveis de escuridão que restam, até que o primeiro raio de sol reapareça. E nada me restaria no dia que segue este, a não ser a esperança de que o negrume tenha sucumbido, e que o primeiro raio de sol poderia iluminar os resquícios das melancólicas 24 horas deste dia que se arrastou.
Que me arrastou.

Amanda H. Ferreira

segunda-feira, 8 de março de 2010

Felicidade boba.


Sabe aquele sentimento que nos faz sentir o estômago frio, como se tivéssemos comido todo estoque de sorvete do mundo, e nos estampa um sorriso no rosto, de modo que parece que há um cabide dentro de nossa boca? Essa felicidade boba que deixa o mundo inteiro colorido por pelo menos alguns minutos da nossa vida, e que nos impede de pregar os olhos de noite, porque ainda estamos sorrindo, é o melhor sentimento do mundo.
Amanda F.

As mãos sob o fantoche.


_ Algum dia, proferirei-lhe minha pergunta.

Por que você não me parece a garota frágil que encanta-se com tantos personagens, que aprecia tanto - ou mais que eu - o prazer de observar a lua? A garota que, como eu, esconde-se de tudo e de todos, sob a roupa que o texto tece-lhe?
Por que sinto que sofre, e que se agita, por detrás das estampas de seu tênis Nike, e que - como, ou mais que eu - prefere não sentir a agonia do passar do tempo?
Por que ambas gostamos do sentimento resignado, do prazer oculto? Por que gostamos de vestir personagens que tinem em tímpanos alheios palavras que, às vezes, não nos pertencem, e vestimentas que não fazem jus a nossa real aparência?
Por que me incomoda, profundamente, olhar para você - uma sombra do fantoche comandado pelo seu "eu" real, um fantoche que criou para si, à imagem e semelhança que os outros criaram de você, e para você? Um fantoche que outros vestiram em suas mãos. Por que me incomoda profundamente ver seu eu real omisso, tão real quanto as mãos que eu mesma omito sob meu fantoche?

_ Algum dia, fingirei que não sei a resposta.

Amanda F.


Texto editado.
Original escrito em: 08/03/2010, às 14:35.
Foto: Site " Reverbera, querida!".

sábado, 6 de março de 2010

Vida interna.

Ela, que vive a vida toda para dentro, que não percebe a necessidade humana e social de se encaixar. Ela, que por mais tempo esteve sozinha, e que não se importou nenhum pouco com isso. Ela, que se tranca no banheiro para dividir a própria ausência, a própria companhia, e para observar a silhueta conhecida, a sua silhueta de sempre, tatuada na parede branca do pequeno espaço. Que senta na tampa do sanitário, descansa os cotovelos nos joelhos, e o rosto nas mãos, encolhida, com a chave da entrada trancada enroscada entre seus dedos, apenas para que ninguém bata na porta ou irrompa no cômodo.
Ela, que aprendeu a escrever, para não ter de falar, e que procurou viver tanto a solidão prazerosamente. Que caminha nas ruas cedo demais ou tarde demais, apenas para não ter de ver carros, pessoas, bicicletas ou animais, dividindo a mesma visão e o mesmo percurso que ela.
Ela, que ouve aos próprios pensamentos mais do que a vozes alheias, que escuta música nos fones, mesmo sozinha, para não dividir a melodia a lugar algum mais que aos próprios tímpanos.
Ela, que sem querer fecha-se, talvez pela noção clara da própria antipatia, ou talvez pela noção que criou dela.
Ela, que daria tudo para caminhar na praia no pôr-do-sol, sem companhia alguma, sem barulho algum, sem visão alguma...sem ter qualquer coisa que seja, que não o barulho da fricção de grãos da areia, do mar tão solitário e tão bonito - do mar homogêneo, que esconde tamanha diversidade internamente. Ela que lê livros, que passa férias de inverno e de verão diante ao ecrã de um computador, sem necessitar de beijos, abraços ou telefonemas.
Ela, que vive a vida internamente, ainda assusta-se sempre que percebe o quão incessantemente - e estranhamente - ela depende de você.

Amanda F.

"Fico vivendo uma vida toda pra dentro, lendo, escrevendo, ouvindo música o tempo todo."
(caio fernando abreu)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sempre.


Então, não se esqueça, amor, quando tudo acabar,
que o nosso "para sempre", sempre fora somente mais um período dentre o tempo e o espaço,
e que era a nossa forma secreta e codificada de dizer que,
enquanto nossa música ainda tocasse nas rádios,
seríamos eternos.
E é nas lembrança nossas, que, para sempre, serei sua.


Amanda F.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Just a little bit more of sugar.




Congele o seu tempo. Ponha duas colheres de açúcar e leve à banho Maria
Há algum tempo, aderi a uma tendência de ouvir pessoas falando sobre perdas amorosas, e romances estranhos. Havia metido em minha mente que nada era exatamente duradouro, e admiti estar parcialmente certa a ideia dos covardes de que "foi bom enquanto durou". Passei, então, algum tempo fingindo às pessoas certas que eu não compreendia, de fato, a perda delas, e que, talvez, era só isso que eu devesse fazer: simplesmente fingir que não transborda realmente sobre mim a dor que elas sentem, que eu não sei o que está se passando, e então, com o tempo, talvez tudo fosse ficar bem de novo para elas. Talvez essas mesmas pessoas se convencessem de que eu não percebera, ou até mesmo elas cheguem até mim para falar sobre isso algum dia, como uma confissão ultrassecreta, que na verdade é só mais uma válcula de escape para o sofrimento delas mesmas - porque eu, na verdade, sempre soubera.
Acontece que, como uma utopia invisível, um código secreto ou um suspiro enterrado fundo no peito, a verdade é que esta ideia toda é uma simples farsa criada de modo a nos fazer sentir melhor: Não há dor e não há tempo, não há felicidade e não há amor, que possam fazer curar uma coisa tão forte, e tão inesperada, quanto a simples perda de alguém amado.
E então toda aquela lábia frustrante de ser forte parece ter todo um sentido diferente. Basta ser forte, porque sempre vamos perder alguém que amamos, e amor, ah!, amor não é o suficiente para manter qualquer coisa que seja eterna. Só porque você ama alguém, não quer dizer que isso bastava para que essa pessoa ficasse ali, sempre. E é a partir deste momento que devemos ser fortes - que é na verdade, fingir sermos menos fracos - para esperar algo que é inevitável na vida; ser fortes para fingir que aguentamos não ter mais a pessoa que tanto amamos.
Mas no fundo, nós só somos pele, carcaça. Nós andamos, falamos, comemos, transamos, temos filhos, aprendemos, fazemos coisas que se aproximem de uma vida, e mesmo assim, quase um século, nunca é tempo suficiente para que saibamos viver. E o que somos nós? Apenas o impulso de fazer algo grandioso não fará de nós mais do que nós somos, não fará de nós mais do que matéria. Não fará de nós pessoas diferentes, só parte de uma minoria que fez algo importante...mas que, como todos os outros, perdeu pessoas que amava, amou outras, e morreu no fim. A inevitável dor e a inevitável perda, chega até para os mais grandiosos.
A partir dai, gostaria de parar o tempo. Gostaria de ter apreciado cada momento melhor do que o que eu tinha apreciado com as pessoas que vou perder, e com as pessoas que perdi. Mas "aproveitar mais" é tão mais prático de se dizer na teoria.
Portanto, gostaria que tudo fosse tão fácil quanto os pensamentos filosóficos e os conselhos passados dizem ser. Gostaria que todos os momentos felizes que passamos juntos fossem o suficiente para ficar tudo bem, quando acordar de manhã e lembrar que aquela pessoa não estará mais lá - mas nada disso é verdade, e os momentos felizes nos remetem a mais falta e mais dor.
A verdade mais fria, então, é que gostaria que a realidade tivesse só um pouco mais de açúcar, porque assim - só talvez - não nos afogássemos tão amargamente.


Mexa calmamente, e espere até que o açúcar penetre.


Amanda F.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Às vezes.

Às vezes, quando me permito fechar os olhos, sinto seus lábios nos meus. Sinto o corpo mais morno, o arfar no pescoço.
Às vezes, o simples fato de estar sozinha preenche-me por completo, e somente fingir que você está mais perto, sussurrando em minha direção no vazio constante, faz-me sentir em meio a um turbilhão de cores, sensações, toques e sentidos...sem ao menos ter de levantar os cílios.
Às vezes, o vento parece tão mais leve e a saudade tão mais presente, que me permito abrir os olhos de novo, e, mesmo assim, sussurrar de volta ao vazio dos arredores, porque apenas tenho a sensação de que, de um jeito ou de outro,
vou me levar a você.

Amanda F.
Foto: LookBook.nu

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Então, é isso.

Então, é isso.
2009 acabou, e vai como mais um ano que passou.
Toda aquela magia de ano novo está pairando no ar agora, e disparando, no céu negro desta noite de lua cheia, fogos de artifício.
Não sei ao certo se este ano passou tão rápido para você quanto sinto que ele passou para mim: rápido e intenso. Não consigo lembrar, claramente, mais de 100 dias destes 365 que se passaram...você consegue?
De qualquer forma, os poucos momentos de que me lembro claramente são aqueles de que nunca mais na vida vou esquecer-me, pois sinto que entrei em 2009 com um pé, e saí em outro. Quero dizer, estou abandonando esse ano com um pensamento totalmente diferente do que o pensamento que me fez entrar nele, e tenho a leve impressão de que esse ano me moldou mais do que qualquer outro - seja pelas novas responsabilidades adquiridas, seja pelas situações completamente diferentes do antigo cotidiano do ensino fundamental com que tive de saber lidar.
Apenas tenho a sensação de que a carga emocional deste ano foi enorme, e me pressiona pensar que, a partir de agora, cada ano que passar vai me dar um choque emocional diferente...Pergunto-me se é isso que as pessoas querem dizer quando dizem que a vida nos ensinará, ou que ganhamos maturidade com o tempo.
Seja como for, não me sinto otimista com relação a um novo começo, mas me sinto feliz por estar começando novamente. Vai entender?
Talvez seja o fato de que esse ano foi tão bom e tão pressionador ao mesmo tempo que eu não me sentia preparada para o final dele...Parei por um tempo e estive pensando: dentro de 18 dias, voltaremos a estudar. Não estou plenamente certa se continuarei no mesmo colégio ou não, mas não é isso que me aflige agora.
Aflige-me estar aqui sentada defronte ao ecrã de um computador que não me pertence, tentando redijir palavras que façam sentido e me deixem mais leve do que antes, mas a cada clique no teclado sinto que fico mais pesada porque mais pensamentos me ocorrem:
Se este ano passar tão rápido quanto o ano de 2009, quando vou aproveitar os amigos que perderei no ano de 2011? De certo, 2011 será a loucura do vestibular, e 2010 vai ser só mais um ano perdido entre o choque das novas experiências e a insanidade da corrida por uma vaga para ser alguém na vida. Parece-lhe justo?
E 2012 (isso é claro, se o mundo não acabar), vamos todos para uma faculdade diferente, em busca de caminhos, às vezes já delineados, outras vezes ainda inalcançáveis, e, mais uma vez, jogaremo-nos de peito aberto a um ano que vai mudar nossas vidas. Assim vai até criarmos uma rotina estúpida, que algum dia vai cansar-nos. Então, sentados em uma poltrona antiga, vamos olhar para uma janela, um albúm de fotografias ou para o teto e vamos tentar lembrarmo-nos de anos que deixamos para trás.
Tenho certeza de que 2009 será um desses anos, um dos anos que fora nos arrancado e jogados para trás, mas que sempre vamos lembrar de um modo ou de outro.
Por incrível que pareça, eu gosto do réveillon, da esperança de que algo que fora deixado no ano passado seja superado e melhorado no ano seguintes. Gosto das listas de afazeres (que eu pago para ver alguém cumprindo), das ondas da praia, dos rituais antigos, de pessoas demais vestidas de branco, do espírito de novidade no ar.
Pareço estar pessimista, mas é apenas medo de escancarar o peito para um ano que pode ser o melhor de todos, ou pode ser o mais frustante de todos.
Mas, do mesmo modo como me aventurei a fazer rapel em Mosqueiro, gosto de uma aventura insana, algo com um gostinho de desafio, algo que sei que vai mudar.
Não sei que palavras usarei para descrever o ano que não as palavras que a Jamilie já havia citado anteriormente, quando, sentadas na cama do quarto dela, com uma música melodiosa que desconheço o nome tocando: "Esse ano foi rápido e intenso".
E foi. Nada mais do que isso, nada menos que isso.
Eu espero sentar muitas vezes no quarto dela, ouvir músicas que nunca ouvira antes, discutir assuntos banais e reclamar de coisas bobas da vida diversas vezes. Assim como espero chegar naquele mesmo banco às 6:50 da manhã e encontrar com os mesmos rostos que me distraem. Espero ir para casa da Mariana tentar ensinar/aprender matemática e física. E espero, do fundo do meu coração, aproveitar mais o tempo ano que vem, ao lado de pessoas que eu vou me afastar com o tempo, mas que, inevitavelmente, são intrínsecas à pessoa que me tornei.
E agora, ao som de fogos que me ensurdecem, feliz ano novo.
Então, foi isso.

Amanda Holanda Ferreira.