
O engraçado, e talvez mais desesperador de tudo, é que já não me importo.
Eu simplesmente já não me importo até onde isso tudo irá chegar - o importante é que continuamos chegando.
Amanda F.
Não escrevo agora, neste exato momento, com estas mesmas palavras, nada útil à ninguém.

Amanda F.

Ela, que vive a vida toda para dentro, que não percebe a necessidade humana e social de se encaixar. Ela, que por mais tempo esteve sozinha, e que não se importou nenhum pouco com isso. Ela, que se tranca no banheiro para dividir a própria ausência, a própria companhia, e para observar a silhueta conhecida, a sua silhueta de sempre, tatuada na parede branca do pequeno espaço. Que senta na tampa do sanitário, descansa os cotovelos nos joelhos, e o rosto nas mãos, encolhida, com a chave da entrada trancada enroscada entre seus dedos, apenas para que ninguém bata na porta ou irrompa no cômodo.

Congele o seu tempo. Ponha duas colheres de açúcar e leve à banho MariaHá algum tempo, aderi a uma tendência de ouvir pessoas falando sobre perdas amorosas, e romances estranhos. Havia metido em minha mente que nada era exatamente duradouro, e admiti estar parcialmente certa a ideia dos covardes de que "foi bom enquanto durou". Passei, então, algum tempo fingindo às pessoas certas que eu não compreendia, de fato, a perda delas, e que, talvez, era só isso que eu devesse fazer: simplesmente fingir que não transborda realmente sobre mim a dor que elas sentem, que eu não sei o que está se passando, e então, com o tempo, talvez tudo fosse ficar bem de novo para elas. Talvez essas mesmas pessoas se convencessem de que eu não percebera, ou até mesmo elas cheguem até mim para falar sobre isso algum dia, como uma confissão ultrassecreta, que na verdade é só mais uma válcula de escape para o sofrimento delas mesmas - porque eu, na verdade, sempre soubera.
Mexa calmamente, e espere até que o açúcar penetre.
Às vezes, quando me permito fechar os olhos, sinto seus lábios nos meus. Sinto o corpo mais morno, o arfar no pescoço.
Às vezes, o simples fato de estar sozinha preenche-me por completo, e somente fingir que você está mais perto, sussurrando em minha direção no vazio constante, faz-me sentir em meio a um turbilhão de cores, sensações, toques e sentidos...sem ao menos ter de levantar os cílios.
Às vezes, o vento parece tão mais leve e a saudade tão mais presente, que me permito abrir os olhos de novo, e, mesmo assim, sussurrar de volta ao vazio dos arredores, porque apenas tenho a sensação de que, de um jeito ou de outro,
vou me levar a você.
Amanda F.
Foto: LookBook.nu