domingo, 23 de maio de 2010

Criptografada.

Talvez um dia, eu venha a te confessar tudo aquilo, que realmente havia pensado, embora saiba que as mentiras se tornarão mais espessas no decorrer do tempo. E ainda vou lidar com esse passado trancafiado, apenas para me tornar mais perto de mim, e mais longe dele. Peço que não se iluda naquilo que não consegue compreender, porque eu não nasci racionalizada - minha mente sempre foi assim, um tanto torpe - e minha intenção nunca foi me tornar coesa. Por isso, não me interprete. Não me organize. Não me decodifique. Não me traduza. Sinta-me.
Pois possui razão a professora de português: o meu problema é a resposta confusa das perguntas simples.


Amanda F.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Desnuda e Desmascarada.

Não se percebem as depressões mais profundas da alma, até que alguém de fora da nossa carcaça - alguém de outra dimensão, que não o nosso próprio psicológico - dirija-se a nós, e as contem - todas elas - em voz aguçada, audível.
Uma por uma.
Até que todas as cicatrizes ressurgem da mais profunda negação; até que todo o tecido, e lástima, parecem nunca terem sido lacrados. E jorra, mais uma vez, em forma líquida, como chuva tórrida de verão - alagando a face, inundando os olhos. Afogando o que antes julgava inteiro, por dentro.
Inevitavelmente.
Deixando cair a máscara que me escondia.
De mim mesmo.

Amanda F.

domingo, 25 de abril de 2010

Vaga.

Às vezes, tenho a sensação de que estou me apagando. Consumindo-me. Talvez seja só parte do Script. Da parte que sei que vou esquecer, então antes mesmo de tentar, não faço questão de lembrar. Onde estive, por onde andei, o que disse. A mente entorpecida. E por assim dizer, vou apagando as minhas trilhas, recordada por outros, esquecida por mim.

Amanda F.

Tempo Primordial.

Eu queria um tempo em que eu pudesse ser ninguém.
Eu queria um tempo em que pudesse transpor quem eu sou.
Tomar um tempo, foder com ele. Fazer todas as coisas do mundo, na esperança de esquecer depois. Talvez. Ousar de toda luxúria, toda volúpia, todo pecado, todo mártir. Beber de todo o elixir da culpa, discórdia, prazer.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse ser feliz um dia inteiro, na íntegra.
Fazer coisas estúpidas, passar um dia banhada em nada, sentir o vento, falar besteira. Esquecer-te um pouco. Talvez. Causar toda a idiotice plausível, imaginável, desejável. Coisas bestas. Beber da fonte mais pura da insanidade, desta vez causada pelo choque de tão elevado nível de alegria.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse morrer.
Sentir toda a tristeza que pudesse penetrar em meus poros, um dia. Sofrer como ninguém nunca sofrera antes, aprender a aguentar a alma misantropa, desgastada, inútil. Sofrida. Morrer em vida. Talvez. Sanar todo o tipo de dor menor esquecida, arrancar feridas antigas. Deixar sangrar.
E esquecer.
Eu queria um tempo em que pudesse nascer de novo.
Livre do lixo da amargura, do descrer humano. Apagar. Esquecer. Morrer. Nascer.
Eu queria ser Fênix, ser Urano, ser Júpiter, ser Cronos.
Eu queria ser uma morta renascida. Eu não queria ser essa morta viva.
Tão cronometrada. Tão indisposta. Tão presa ao tempo. Tão repetitiva. Tão gasta.

Eu queria ter um tempo em branco, esquecimento. Um tempo em que fosse tomada da ignorância. Queria viver todos os sentimentos do mundo. E esquecer.

Começar a redijir uma folha em branco, sem marcas, sem direção, sem memória, tão mais brilhante do que a que estava apagada.

Amanda F.

terça-feira, 13 de abril de 2010

À aniversariante de hoje,


Não possuo risos melhores a dar do que aqueles que você me deu.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Já não importa.


O engraçado, e talvez mais desesperador de tudo, é que já não me importo.
Eu simplesmente já não me importo até onde isso tudo irá chegar - o importante é que continuamos chegando.






Amanda F.

sábado, 20 de março de 2010

Nada utilitário à alguém.

Não escrevo agora, neste exato momento, com estas mesmas palavras, nada útil à ninguém.

Não me escrevo pelo prazer do escrever, ou para soar bem à alguém. Não me escrevo por nada mais que não a covardia, perdida no medo do gritar - e no medo do silêncio.
Escrevo sem esperar que algo seja modificado nesta vida seca que estou vivendo, ou na intenção de provocar algum arrebatador sentimento, no âmago destes mesmos olhos vazios que agora estão serpenteando dentre este texto, lendo este esboço sem a mínima atenção real.
Escrevo na esperança de parar de chorar.
Parar de tremer de frio - uma sensação estranha que não me deixa gelada, não me deixa desejosa por calor. Só uma sensação de falta de energia, da falta de transição da necessidade humana por algo que acalente.
Escrevo para parar de tremer.
Na hipocrisia de gostar de letras, estruturas e palavras, escrevo para usá-las. Não quero aumentar qualquer espécie de sentimento alheio, não me importo em causar empatia. Não preciso, agora, escrever bonito. Eu posso escrever nestas linhas tortas, com estas letras garranchudas, porque eu só quero gritar, respirar com a pulsação normal, escrever até que esta mancha líquida, escorrida sobre a minha face, seque, só até que meus olhos murchem, e o tom avermelhado, das maçãs do rosto, sumam. Aí, direi-lhes que estou sonolenta, mais uma vez falsa.
Mas agora não preciso escrever ou falar nada real, nada bonito, embora minha realidade esteja momentâneamente feia, não quero mudar meu mundo, só quero que meu coração pare de pulsar assim, e que o silêncio que me cerca, também faça perder-me em minhas próprias palavras, nesta explosão errônea, rápida e mal-feita, em tinta.
Nada mais encaixa-se como antes. A última coisa de que quero recordar-me não é um beijo lúdico. Torto. Só não quero lembrar de nada.
Doem-me os nós dos dedos, e, em breve, alguém mal informado da vida alheia irromperá cômodo adentro, e talvez este alguém não me perceba, corcunda sobre esta folha de papel. Talvez pareça só mais alguém que não escreve na esperança de que algo mudará. Talvez. Não por agora.
Mas avisei que não escreveria nada útil à ninguém.

Amanda F.


18.03.2010
18:15

quinta-feira, 18 de março de 2010

24 horas.


Há dias que gostaria de transpor, como que por um simples toque, no botão de "agilizar vídeo", do controle remoto. Dias estes em que o mundo parece mais pesado, confuso, incerto. Mais lastimável. Torto. Dias estes que teimam em passar lentamente, mas que possuem toda a sorte das 24 horas sequenciais para que as lágrimas caiam rapidamente, dolorosas na face. Fáceis. O nascer do sol não parece iluminar nada mais, e o anúncio do cair da noite torna gritante as 12 horas intermináveis de escuridão que restam, até que o primeiro raio de sol reapareça. E nada me restaria no dia que segue este, a não ser a esperança de que o negrume tenha sucumbido, e que o primeiro raio de sol poderia iluminar os resquícios das melancólicas 24 horas deste dia que se arrastou.
Que me arrastou.

Amanda H. Ferreira

segunda-feira, 8 de março de 2010

Felicidade boba.


Sabe aquele sentimento que nos faz sentir o estômago frio, como se tivéssemos comido todo estoque de sorvete do mundo, e nos estampa um sorriso no rosto, de modo que parece que há um cabide dentro de nossa boca? Essa felicidade boba que deixa o mundo inteiro colorido por pelo menos alguns minutos da nossa vida, e que nos impede de pregar os olhos de noite, porque ainda estamos sorrindo, é o melhor sentimento do mundo.
Amanda F.

As mãos sob o fantoche.


_ Algum dia, proferirei-lhe minha pergunta.

Por que você não me parece a garota frágil que encanta-se com tantos personagens, que aprecia tanto - ou mais que eu - o prazer de observar a lua? A garota que, como eu, esconde-se de tudo e de todos, sob a roupa que o texto tece-lhe?
Por que sinto que sofre, e que se agita, por detrás das estampas de seu tênis Nike, e que - como, ou mais que eu - prefere não sentir a agonia do passar do tempo?
Por que ambas gostamos do sentimento resignado, do prazer oculto? Por que gostamos de vestir personagens que tinem em tímpanos alheios palavras que, às vezes, não nos pertencem, e vestimentas que não fazem jus a nossa real aparência?
Por que me incomoda, profundamente, olhar para você - uma sombra do fantoche comandado pelo seu "eu" real, um fantoche que criou para si, à imagem e semelhança que os outros criaram de você, e para você? Um fantoche que outros vestiram em suas mãos. Por que me incomoda profundamente ver seu eu real omisso, tão real quanto as mãos que eu mesma omito sob meu fantoche?

_ Algum dia, fingirei que não sei a resposta.

Amanda F.


Texto editado.
Original escrito em: 08/03/2010, às 14:35.
Foto: Site " Reverbera, querida!".