quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Feliz 2009.


_Adeus ano velho.

Mais uma vez damos adeus ao ano que se passou, e boas vindas à todas as lembranças que estão por vir em um novo ano. Essas boas vindas podem vir nas ondas do mar, ou na espuma do champanhe.
Há dois momentos marcantes na vida de todas as pessoas, dos quais todos nós passamos ou passaremos. Estes momentos chamam-se 'nascimento' e 'morte'. Alguns de nós, mal dão boas vindas ao mundo, e vão embora, gélidos e incapacitados de viver a vida. É este momento intermediário que chamamos VIDA. Ela passa tão depressa, mais rápido do que qualquer um compreenderia.
Chegamos ao mundo em um tempo médio de 8, 9 meses. Vamos embora em questão de segundos. Perdemos pessoas importantes.Choramos e sorrimos com elas, e as lembranças nos devoram no mesmo segundo em que esta pessoa nos é tirada.
Meus amigos, à vocês que compartilharam este ano comigo, digo-lhes: Obrigada. Obrigada por me deixarem fazer parte deste curto momento intermediário que chamamos vida. Obrigada por rirem e chorarem comigo. Por estarem presentes até nas mais supérfluas memórias. Obrigada por dividirem este ano que se passou comigo, um longo ano que sempre hei de recordar, mas apenas mais uma linha no tecido da vida.
Peço-lhes todos que me dêem também mais anos de sua companhia. Que compartilhem sorrisos e lágrimas comigo. Memórias e tantas lembranças, que vocês já deixaram tatuadas aqui, no meu coração. A morte é apenas uma mera passagem. E no momento do 'adeus', mesmo assim, sussurarei à vocês: 'Obrigada', porque esse pedacinho de cada uma de suas vidas ficaram guardadas aqui comigo, no meu coração, na minha alma. Pra sempre. Vocês já fazem parte da minha vida.
Em 2009, desejo à todos: felicidade, amor e paz. Desejo que possam se deliciar com os bons momentos que a vida nos trará. Que sejam felizes, e que acima de tudo: continuem sendo essas pessoas maravilhosas de que tanto amo, por muitos e muitos anos, e deixem-me fazer parte de suas memórias.
Lembrem-se: Não é porque 2008 se foi que tudo o que ocorreu nele também se fora. Nossas recordações e as pessoas que amamos neste ano continuam conosco, seja onde estiverem.
Desejo que este ano possa ser ainda melhor do que o ano que se passou.
Estes são meus sinceros votos de revéillon para todos.

_Feliz ano novo. Feliz novo começo.


Amanda H. Ferreira; 1/1/2009 às 4:49.




In memorium of:
Natalina Menezes.
. (A verdade é que ela nunca se fora).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Simplória Solidão.


O vento bate em meu cabelo. O Sol brilha por detrás das folhas, que dançam ao ritmo do vento. Ouço sorrisos ao longe. Também ouço vozes. O silêncio que me enche, esvazia-me a alma. Tudo parece tão calmo.
Os passáros cantam a sua eterna melodia. O pintor está a pintar, na provisória monotonia. Está tudo tão vazio.
Os carros passam ralando pneus no asfalto antigo. As buzinas apressadas, e o vai-e-vem misantrópico das pessoas nas ruas, a maioria delas andando à nora, ou apressadas com diversas atividades a serem cumpridas. Estou demasiada só.
As pessoas estão passando com seus problemas em mente. O olhar vago, nem sequer percebem seus rostos descontentes, ou que as observo de soslaio. Eu sinto apenas a presença do papel e da caneta, ao meu redor.
O vento bate de repente.
Que tarde gris!
Não há sentimento, há só...gente.
.
.
.
(Por favor, chegue logo)
Amanda H. Ferreira

sábado, 13 de dezembro de 2008

Até que a eternidade nos separe.



Desde sempre, somos nós: assim, amigas inseparáveis. Como somos imperfeitas, brigamos e choramos. Até mesmo, nos estapeamos. Mas estava sempre implícito em cada frase, a cada olhar: morreríamos umas pelas outras.
Não somos irmãs de sangue, é claro, mas isso não quer dizer que não possamos ser irmãs, e como tal, brigaremos, sorriremos e estaremos sempre juntas.Víamos sempre a vida da nossa maneira, e continuamos a vê-la, mas não do mesmo jeito. Aceitamos nossas mudanças, sem medo, pois temos tantas memórias unidas, que já não importa. Simplesmente não importa o que aconteça, aqueles momentos nunca deixarão a amizade evanescer, mesmo que venha o tempo e novas lembranças.
Não podemos dizer que não existe o medo. Eu pelo menos, tenho medo de perdê-las, pois há tantos outros sorrisos amigos ao redor de todas. Há pouco, soube que, mesmo que haja centenas de sorrisos amigos ao redor, isso não quer dizer que eu não seja um deles. E juntas, temos o sorriso mais ofuscante, o mais verdadeiro e puro de todas as amizades.
Nós sobrevivemos ao tempo. Sim, juntas sobrevivemos ao tempo, às mudanças e às pessoas. A cada pessoa, a cada queda, eu notava que elas já eram importantes demais para se esquecer, e esquecer seria para mim impossível. As tenho na memória a cada aniversário, desde que me recordo.
Já não precisamos ouvir declarações de amor, pois é notável que ele é grande demais para uma simples declaração. Grande demais para um reles texto.
A nossa amizade já oscilou, é verdade, mas nunca acabou. A cada queda, mesmo quando parecia-me impossível, levantamo-nos, e em seguida nossa amizade era a mesma, inabalável novamente, nós é que mudamos.
Nossos sorrisos nas festinhas arranjadas, nossas lágrimas nas nossas brigas bobas, nossas idiotices sempre que possível, nossas invenções nos dias mais loucos. Tudo isso, mesmo que a mente esqueça, o coração nunca deixará sumir.
Vocês duas, já são moradoras deste órgão aqui no peito esquerdo há tanto tempo, que nunca mais sairão, nem que queiram, pois enquanto eu respirar, vocês estarão batendo dentro dele.
E eu digo, com a maior certeza do mundo: que venham as chuvas do verão, os ventos do inverno, e os trovões das maiores tempestades. Estaremos sempre juntas, inseparáveis. E estaremos para sempre juntas, até que a eternidade nos separe.

Amanda H. Ferreira.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Rosas da Estação.


Pude presenciá-la, a mais bela flor entre todas.
Era diferente, tinha um aroma marcante, mudava a cada estação.
Ela podia ser frágil, mas não desistia em nenhuma tempestade.
Ela podia ser linda, mas não era vazia.
Como as outras, a cada estação, sempre muda.
Tudo muda, as flores não seriam diferentes.
Mesmo mudando a cada estação, ela não era volátil.
Era apenas de momento.
Destacava-se dentre todas as flores, mas não era única por isso.
Era única porque aonde ia, deixava a imaginação voando no ar.
Seu vermelho estoneante marcava os olhos.
Ela podia ter espinhos, mas não era para ser má.
Ela podia ser vistosa, mas nunca sairia de lá.
Ela podia ser a flor mais linda que qualquer um jamais vira, mas nunca despresara as outras rosas.
Mesmo sabendo de sua tremenda importância.
Era idêntica às demais naquele imenso campo florido.
Ela não queria ser igual, era diferente na essência.
Ela era própria, era marcante.
E era tudo isso que fazia dela única.
Seu interior era divino, mas não era qualquer um que vira isso.
Simplesmente era doce.



Ah menina, se soubesses.
Se soubesses como pareces com aquela rosa.
Era a semelhança entre vocês que fazia aquela flor ser marcante.
E como ela, você sempre foi parecida com os outros, naquele extenso mundo.
Mas era diferente na essência, sempre fora.
E agora menina, por que te sentes tão solitária?
Um dia, você há de achar alguém, sim há.
Alguém que não tenha medo de segurar seus espinhos.
E esse alguém verá, que por baixo de todos aqueles espinhos,
você sempre fora a flor mais única do campo.
Acredite-me, você nunca estará só, enquanto houver alguém que perceba a sua importância.
E eu sempre estarei com você.




Amanda Ferreira


(P.S.: Será que a Jamilie entendeu?)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Inscrição no guardanapo.




E o vento levou toda a felicidade que a tempos venho nutrindo.
Levou embora, como se arrancasse doce de uma criança.
E não devolveu.
Esqueceu-se.
Garanto-te que a dor é muito maior que a de uma criança. Dói demais e não dá trégua.
Por favor, entenda o que meu coração não me deixa compreender.
E então, somente então, traga o mesmo vento que machucou minha alma, e o faça devolver meu sorriso.
Mas fique sabendo que eu sinto muito.
Não sabes quanto.

(27/11/2008 às 1:30)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Indescritível.



Ela caminhava na praia, aflita com os pensamentos, em uma luta banal contra a própria imaginação, a própria dor.
Queria gritar alto pra não afogar nas mágoas, mas por que o faria?
Caminhava entre a turbulência das ondas e a segurança da areia.
Quantas vezes já o fizera sozinha? Andando entre a emoção e a razão.
Sentou, afundou os pés na areia molhada, apreciando o vai-e-vem das ondas.
O barulhinho da praia que ela tanto gostava, causado pela fricção dos grãos de areia dourada, parecia tomar conta dos ouvidos, mas não da mente por completo.
O Sol estava se pondo, mas não conseguiria vê-lo dentre as nuvens acizentadas de chuva, e principalmente, através das lágrimas que brotavam em seus olhos.
A água caiu do céu, no entanto não levou a dor, não lavou a alma.
A agonia da espera é a pior emoção do mundo, e ela sabia disso.
Por quê? Por que o fez esperar tanto?
Medo.
E esperou a madrugada toda, sob a chuva e sob a dor, o tempo passar.
Continou sentada lá, esperando, chorando até as lágrimas secarem por si só, ou pelo menos até não sentir mais o calor das lágrimas caindo no rosto, encobertas pela prataria gélida das gotas de chuva, que também escorriam junto com as lágrimas, sobre o mesmo rosto, pelo mesmo percurso.


Um ano se passara quando aquela mesma situação ocorrera, mas ainda a tinha fresca na memória.
Ele chegou e a aqueceu.
Era tarde, mas ele chegou.
Encoberto pelas últimas sombras antes do amanhecer.
Tocou-lhe o rosto, disse-lhe que esperaria para sempre se pudesse.
"Eu te amo", soprou no vento.
Tocou-lhe os lábios docemente e fora indescritível.
Deixou-a sem palavras.
Então, o mesmo vento que o trouxe para ela, levou-o embora.


Ela ainda estava ali esperando, mas ele não viria, ela sabia.
Era a única coisa da qual estava convicta.
Não sabia dos seus sentimentos, esquecera os seus medos.
Volta, que o nosso amor está acima das coisas deste mundo.
Voltou tarde demais, ela lembrava a si mesma.
O tempo interminável.
Até que ouviu os passos, sentiu o cheiro.
Como seria tão boba?
Não enchergara um palmo adiante do nariz, não sentira nada além da própria presença.
Não chorava nada além da própria dor.
Uma sombra surgiu atrás dela.

Ele não viria; ele sempre esteve ali.


[Então, acordei.]

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Pesar da perda.



" Os vejo o tempo todo a negar, mas eu não poderia estar errada. O que houve? Admito que não sei. Nem eles sabem, apenas acabaram.
De um dia para o outro, o passado foi descartado e tudo, em absoluto, fingido ser esquecido. Nesse caso seria errônea a expressão: 'corações machucados', pois sentimos como se este órgão, agora vazio, nunca houvesse sido inteiro.
Imagine você, ninguém compreende inteiramente um olhar que já não ofusca os demais com sua luz sonhadora, mas podem entender plenamente a notoriedade da situação em seus rostos, que já sem expressão estão, e no desespero de seu silêncio. Silêncio que machuca. Vazio que enche.
Não direi-te que presenciei todos esses fins a bel prazer, quando sofro tanto quanto eles, como se meu coração e o deles untassem-se em um só. Por mais que ainda o tenha a meu lado, aquele a quem mais amo, a falta daquela felicidade que cercava-me faz com que também meus olhos já não ofusquem mais.
O céu matinal de toda uma semana fatídica estava apenas sereno demais, como se o Sol resolvesse sorrir por essas desgraças.
O vento, que vai e vem, leva palavras e suspiros, mas deixa o pesar da dor e das lembranças. E que encosto.
No entanto, não deixo de notar que o céu noturno parece uma tela negra, cravejada de diamantes. Noto que falta a metade da Lua e ela já não brilha tanto quanto antes. Nem ao menos é a única."

Amanda H. Ferreira

Imagem: Henri Silberman

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Mudança.

Estava exausta da mesma face no blog, mudei.
Hoje muito mudou.
Pequenas coisas feitas que mudaram muito.
Um amor que sobreviveu.
Um sorriso amigo.
Uma saudade avassaladora.
E a frase: "fica comigo".
Sinto falta do meu amor, nesta distância louca.
O dia foi corrido demais pra continuar na mesmisse.
Simplesmente, resolvi mudar.
Como diria Clarice Lispector:
"Eu serei sempre eu mesma, mas não serei a mesma pra sempre"

Fica Comigo

Eu quero um amor assim:
ser, estar e viver uma grande amizade,
que de tão grande, se torna uma cumplicidade,
e por haver cumplicidade, se respeita,
se busca, se deseja, se ama...

Quero um amor assim, talvez como você,
que busca viver além das aparências,
um grande caso de amor,
que seja mais do que chama,
que seja uma fogueira amiga que indica direção,
como farol no caminho da vida, as vezes tão escuro,
que seja uma fogueira perene,
onde cada um coloque sempre um graveto,
mantendo sempre acesa a nossa paixão.

Quero um amor de rosto colado, de mãos dadas ao entardecer,
de telefonemas inesperados, de corpos suados,
de entrega e paixão,
de conte comigo, de estou aqui
de muitas palavras, mesmo que em silêncio.
Quero um amor assim,
com o teu jeito, com teu sorriso,
sem o medo do passado e despreocupado do futuro.
Sabe de uma coisa?
Você é o meu número,
tem a exata medida da minha paixão,
esta noite eu te convido:
fica comigo...

(Paulo Roberto Gaefke)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Necessidade de escrever nada.

Escuta músicas melancólicas, poesias d'alma vazia.
Os pés contorcem-se no chão frio.
A chuva que não vem, levaria a dor do peito, os olhos acompanhariam a prataria das gotas, os olhos fariam gotas de prata que escorreriam pela face.
E a saudade daquela presença, o vazio que perturba.
Não sabe o sentimento, mas chamam-no de tristeza.
Acorda de noite e espera clarear, só por esperar, só por não ter escolha.
Aquela que anda por ruas fazias, só por andar, só por pensar.
Espera, em vão, que o vento leve a resposta e a chuva lave a alma.
Sonha, sonhos surreais, só para fugir do real, que é tão surreal quanto.
Confunde.
Necessita de algo, mas continua no nada.
Aquela que sonha em sentar no telhado, olhar as estrelas, só por olhar.
Não resolve a vida, mas também não o deseja.
Deseja algo, não sabe o que.
Enquanto não sabe tem necessidade de nada.
Não é triste, mas não é feliz.
O vazio que perturba.
Quem nunca o sentiu?
Nada mais triste do que não saber o que trás o sentimento, ou a falta dele.
Apenas, nada.
Necessidade de nada.
Alma vazia.
Sorriso congelado.
Frases perdidas.
Pára no meio do nada, tentando achar o que pensar.
Congela.
Apenas, nada.


Tinha apenas essa necessidade de escrever o que sente.
Sabendo que de nada adiantaria, mas necessitava.
Ninguém entenderia, a mesma não entenderia, mas tinha a necessidade.
Necessidade de escrever nada.



"Só eu sei da minha tristeza...
Só eu sei da minha dor...
Só eu sei da minha verdade...
Que não se esconde, para agradar ninguém...
Só eu sei da dificuldade que é caminhar...
Depois de cair de um lugar tão alto...
E mesmo sangrando por dentro, resistir...
Só eu sei como dói lembrar...
Do que poderia ter sido e talvez não será...
Só eu sei a força que tenho que fazer para de novo levantar...
Só eu sei...
Só eu e mais ninguém..."
Nilza Rodrigues

Imagem: Tim Walker.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Saudades.

Estava a admirar a solidão. Estava a recordar-me momentos mágicos de minha vida. Sempre as mesmas pessoas, os mesmos sorrisos. Percebi o erro. O maior de todos que pudera cometer. A deixei sozinha. A deixei.

Estava tão mergulhada em meus interesses, em meu egoísmo, imaginando coisas que poderia fazer a bel prazer, e não a notei. Ela sempre esteve lá, ela sempre esteve em minhas lembranças.

Achando que ela poderia notar num gesto o quanto a amava, o quanto sua presença era importante para mim. Não perceberia, como era ingênua. Havia tanto o que falar, mas essas conversas contiveram-se em nossos olhares. As discursões estouravam-se em nosso silêncio. E sua expressão, sempre era a mesma. Quem imaginaria?

Agora, com os pés descalsos, apreciando o céu, sonhando acordada, devaneando, imaginei o quanto seu sorriso era importante. Vi-o no contorno das nuvens. Seu sorriso, aquele que fazia-me sorrir, tão boba, em um gesto automático e de um jeito lerdo, era o melhor, o mais real.

No momento seguinte, voei para o presente. Lá estava ela. Sorrindo do mesmo jeito, mas ao seu lado não era eu. Ao seu lado havia outra sombra. Ela achou outro aconchego. Em que errei, era o que eu estava pensando. Imagine você, todos os sonhos pareciam ter-se ido. Mas o erro era o de menos. O problema maior foi o que eu não fizera. Um sorriso naquele momento, três simples palavras importantes. Por aquilo que não fiz, teria os mais importantes momentos. Mas não o tive.

Não adianta chorar agora, mas meus olhos não escutam-me. Não lamentar o que não foi feito me era impossível naquele momento. E eu chorei, nem ao menos me envoergonhei disso.

Mas sinto sua falta. Eu perdi aqueles momentos, mas nem um dia a mais. Vou falar-te o que se passava em meus olhos naqueles tempos, que o obscuro dos seus não conseguiu captar. Direi-te com toda a notoriedade que essas palavras possuem, o que se passa em minha mente o tempo todo. Coisas simples, mas as mais importantes. Direi-te que te amo. E mais importante: Sinto sua falta, sempre senti.




A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Foto: Rodney Smith