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sexta-feira, 11 de julho de 2008

Saudades.

Estava a admirar a solidão. Estava a recordar-me momentos mágicos de minha vida. Sempre as mesmas pessoas, os mesmos sorrisos. Percebi o erro. O maior de todos que pudera cometer. A deixei sozinha. A deixei.

Estava tão mergulhada em meus interesses, em meu egoísmo, imaginando coisas que poderia fazer a bel prazer, e não a notei. Ela sempre esteve lá, ela sempre esteve em minhas lembranças.

Achando que ela poderia notar num gesto o quanto a amava, o quanto sua presença era importante para mim. Não perceberia, como era ingênua. Havia tanto o que falar, mas essas conversas contiveram-se em nossos olhares. As discursões estouravam-se em nosso silêncio. E sua expressão, sempre era a mesma. Quem imaginaria?

Agora, com os pés descalsos, apreciando o céu, sonhando acordada, devaneando, imaginei o quanto seu sorriso era importante. Vi-o no contorno das nuvens. Seu sorriso, aquele que fazia-me sorrir, tão boba, em um gesto automático e de um jeito lerdo, era o melhor, o mais real.

No momento seguinte, voei para o presente. Lá estava ela. Sorrindo do mesmo jeito, mas ao seu lado não era eu. Ao seu lado havia outra sombra. Ela achou outro aconchego. Em que errei, era o que eu estava pensando. Imagine você, todos os sonhos pareciam ter-se ido. Mas o erro era o de menos. O problema maior foi o que eu não fizera. Um sorriso naquele momento, três simples palavras importantes. Por aquilo que não fiz, teria os mais importantes momentos. Mas não o tive.

Não adianta chorar agora, mas meus olhos não escutam-me. Não lamentar o que não foi feito me era impossível naquele momento. E eu chorei, nem ao menos me envoergonhei disso.

Mas sinto sua falta. Eu perdi aqueles momentos, mas nem um dia a mais. Vou falar-te o que se passava em meus olhos naqueles tempos, que o obscuro dos seus não conseguiu captar. Direi-te com toda a notoriedade que essas palavras possuem, o que se passa em minha mente o tempo todo. Coisas simples, mas as mais importantes. Direi-te que te amo. E mais importante: Sinto sua falta, sempre senti.




A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Foto: Rodney Smith