quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A conta do analista.


Maluquices à parte, acredito cada dia mais em minha loucura. Poético, doutor? A cada dia que passa, noto cada vez mais perguntas em meus textos. Revejo e releio a mim mesma em incontáveis páginas. Noto que meu porto-seguro foi sempre só porto, jamais seguro, e que meu chão foi todo estranhamente construído em ar. Outro dia, veja bem, vi passar a sombra de alguém que poderia ter sido qualquer um, e me perguntei porque o deixei ser quem foi para mim, agora que me é tão indiferente. A cada dia que passa, questiono-me cada vez mais, ponho à prova minha própria tese. Minha insânia, melancolia, neurastenia - minha loucura toda me tem, agora, por início, meio e fim. Dessa vez, preste atenção, eu estou em plena análise de mim mesma! E nunca está - ou estará, estou certa? - suficientemente bom. Ah, mania maldita de perfeição. Percebe? Encontro prisões na maquiagem que esconde o real do rosto, nos sinais vermelhos dos semáforos, nos bilhetes de estacionamento do shopping. Encontro catracas em meus próprios textos. Faz sentido? Ando me perguntando muito isso, ultimamente. Que será, doutor? Que será que se encontra  dentro de mim que sorri tão voraz enquanto digo tudo isso? Que será que rasga? Porque jamais os versos do garoto que ia mudar o mundo me soaram tão vívidos, meu caro. Estou aqui agora, vê? E também estou aqui pra pagar a conta, doutor - estou aqui pra nunca mais ter que saber quem eu sou.

Amanda F.


Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais ter que saber que eu sou!
Ah, saber quem eu sou...
(Cazuza)

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conturbados sentidos.


Vai haver alguém, um dia, que sinta por mim a conturbação que eu sinto, eventualmente, por você. Feito maresia. Desfaço-me toda em água, construo-me toda instável, por você. Faz sentido? Tenho ciúme de passados presentes, de presentes que almejam futuros e de futuros sem mim. Tenho uma inquietação insana na qual navegam minhas artérias, músculos, veias, pensamentos, órgãos e devaneios. Faz sentido? Minha quimera misantropa mergulha nela. Rasga-me inteira por você. Meu exterior sucumbe aos olhares alheios e o nosso sofá-de-nós-dois abre espaço pra uma, duas, três, centenas de infinitas pessoas. Faz sentido? Irrompem-se poréns, mas, porquês, comos, enfins, entretantos, nos risos lúdicos de nós dois.
Não.
A gente não faz sentido, amor.
A gente faz sentir.

Amanda F.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Hermeneuta da madrugada


Hoje ela acordou um pouco tarde, em seu relógio amanhecido, e olhou o céu distante. Ritmo de todas as manhãs, madrugadas estreladas, luas furta-cor. A sala ainda estava vazia, a estante de livros bagunçada, o silêncio inteiro gritando lá fora e, por dentro, a mente barulhenta de sempre. Ouviu, distante, seus ecos, vislumbres, devaneios - uns sonhos de noite, solitude inquieta. Pensou que a maioria das pessoas não tem o prazer de observar o céu - "devem ser todas tristes, pobrezinhas". Lá fora a tempestuosa madrugada negra gritava por ela e por suas danças de lua. Como quem jamais amou ou ama o tempo inteiro, ela ainda transbordava ao abrir a porta, ao enxergar o alto. O infinito inteiro sobre ela, o infinito inteiro pele adentro - sabia disso e sempre soube. Sorriu antecipando passos, colocou os pés na água, sentiu o vento - tradição muda, relíquias da infância. Pensou que talvez ela fosse mesmo estranha, afastada dos outros...mas acontece que ela só era ela com os pés na água, com o corpo mudo, a mente barulhenta, o mundo de soslaio, e os olhos fitando o céu. Ela só era ela ali, sabendo que o Sol surgiria em breve, e que o "bom dia" mais próximo calaria sua mente e a faria abrir a boca, até que ela pudesse voltar a ser ela de novo, nas noites suas de todos os dias; uma hermeneuta da madrugada - seu ritual pessoal - toda vida traduzindo estrelas.

Amanda F.

domingo, 8 de abril de 2012

Feito marinheiro.


Me deixe partir, feito marinheiro. Mas, se não for pedir demais, quando eu chegar, seja meu porto, e, com toda alma e pompa, me peça para ficar. E aí, quem sabe, eu fico.
E aí, você sabe - eu fico.

Amanda F.

segunda-feira, 26 de março de 2012

De carne e osso.

Eu não conheço o ideal de amor, garoto. Na verdade, não me interessa, nem sequer interessou. Não me atrai a utopia de Romeu e Julieta: eles jamais provaram a companhia um do outro em noites de verão, nem sequer passaram por uma briga típica dos casais mais apaixonados e explosivos. Eles não conheceram as manias um do outro, os defeitos, os detalhes, as curvas do corpo. Não os invejo, não tenho compaixão alguma por eles.
Não sou platônica, garoto, eu sou mulher. 
Portanto, não me venha com as mesmas coisas de sempre, garoto, por achar que sou doce, boba, ingênua. Confie em mim: até mesmo as mais vadias possuem as vestes das santas, no armário da fantasia. Não me diz que faria tudo por mim, vou enjoar de você nas primeiras 24 horas. Não vem dizer o que acha que quero ouvir - vou rir de você quando não estiver ouvindo, divertir-me em espasmos involuntários quando virar de costas.
Eu gosto mesmo é do contrário.
Não me descasque - sou dura. Não me interprete - sou torpe. Deixe-me ser todinha minha, e não sua, porque a sua maior conquista vai ser quando eu, em uma tarde banal qualquer, olhá-lo nos olhos e descobrir que eu já me perdi de mim faz tempo, e nem dei por falta, nem fiz queixa de sequestro, nem ficha de desaparecimento na polícia.
Não ache que me conhece, vou querer desafiá-lo, e, acredite, vou ganhar. Ache graça das coisas simples, ache graça de mim, e, principalmente, ache graça comigo. Não costumo dar gargalhadas boas ou sorrisos bobos a não ser que seja real, e a realidade, garoto, é muito mais atraente do que qualquer ideal de corpo.
Ah, e por favor, cortesias me cansam, e cantadas vão me fazer querer ridicularizar você. Seja você, seja teimoso, seja tonto, seja errado. Perfeição me dá nos nervos, garoto, e o ceticismo vai me forçar a zombar da sua pompa, assim que julgar me ter nas mãos.
Então, garoto, não gaste nosso tempo. Olhe pra mim. Aprende a ser cafajeste do jeito certo. Jamais vou levá-lo a sério, e você, por favor, leve-me à toa. Assim, aos poucos, numa boa, a gente pode, quem sabe, descobrir o que é amar?

Amanda F.

sábado, 24 de março de 2012

Dois.


 "(...) liberdade é, simplesmente, permitir estar aprisionado a outro alguém." 
Thiago Guizilini 

Flamma.


Abraça-me. Aquece-me. Faça-nos queimar. Cada veia, cada pulso, cada gota de sangue que nos atrasa - queime tudo, renasça. É pelo fogo que a natureza se renova, é pelo corpo que nos faremos fênix. Não se extinga no calor humano: traga a chama, traga as supernovas, exploda o Sol em mim feito chuva tórrida em tarde quente. Seja eterno, seja incandescência - cubra cada milímetro do meu corpo em chama, que é na iminência do fogo que vamos nos encontrar. E abraça-me - abrasa-me.

Amanda F.

domingo, 18 de março de 2012

Alquimista.


Já não aguentava mais. Há tanto não aguentava mais aquela prisão constante.
Alquimista libertina, sedenta por ar e sonhos.
"Há de haver um jeito!", gritava aos bêbados, aventureiros, viajantes. "Um portal, um elixir, uma chave. Talvez um caminho perdido...
Há de haver um jeito de sair de dentro de mim."

Amanda F.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Paradoxal.


Todos somos paradoxos,  
buscando o porquê da existência, 
quando a nossa real tendência 
é a nulidade.

Amanda F.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mentirosa.

Sou escritora, e, portanto, mentirosa. 
Mentirosa porque sou artista, mentirosa porque crio, mentirosa porque, simples e francamente, minto. 
Minto porque não há fronteiras na minha arte, porque as palavras não possuem pontos finais, porque despersonalizo, fantasio, crio - minto mil quimeras misantropas, mil fantasias inventadas, mil e uma noites de utopia, e mil e uma faces que não visto.
Sou escritora, e, portanto, não minto idade, não minto caráter, não minto opinião. Minto realidade. Teço-a da forma que quiser ver, da forma que quiser ser lida, e da forma que quiser ver despida.
Minto porque faço da sua realidade a minha mentira.
Minto descaradamente quem sou somente fora das palavras, fora do papel - fora das letras, canetas, e folhas rabiscadas. Minto quem sou apenas quando não escrevo, porque o que sou é um jogo de palavras andante; fantásticas palavras pulsantes que visto ao me fantasiar.
Sou escritora, e, portanto, minha única verdade é também minha maior mentira.


Amanda F.