
Na cômoda do meu quarto, ainda mantenho aqueles depoimentos escritos em letras infantis, desenhadas em páginas soltas e capas de cadernos passados.
No meu armário, ainda guardo cartões-postais de épocas distantes e fotos de sorrisos que não surgirão para mim nunca mais.
Em meus baús, ainda alojo diários tão antigos quanto minha memória, com letras arredondadas e dramas juvenis de alguém que via o mundo com outros olhos, que me parecem, agora, tão distantes dos mesmos olhos meus.
Na minha parede, ainda penduro enfeites, berloques, que lembram tanto os dias em que bonecas eram mais do que minha mente agora as faz significar - apenas modelos sem vida, que foram tão vívidas há alguns anos.
No fundo de minhas entranhas, enlaçado como laços de sangue, nutro o medo que me prende a este passado em êxtase, que me parece tão distante, mas do qual eu não me atrevo a esquecer.
Não quero perder esses sorrisos, mesmo que jamais os veja de novo.
Será que é idiota demais pensar que me perco em mil folhas para me afogar eternamente em lembranças de modo que nunca mais possa esquecê-las?
Pois que seja. Em apetrechos antigos, encontro e revejo momentos passados.
O mundo não pode esperar, mas sei que viverei a esperá-lo...
Na gaveta de meu criado-mudo, ainda guardo aquele relógio que, um dia, ainda vai retroceder.
Amanda F.
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