terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Misantropa quimera.

Há uma criatura em mim que é triste. Ela simplesmente existe e me habita.
Parece-me antiga, arrastada. Parece-me externa a mim, mas ao mesmo tempo tão intrínseca a quem sou.
Vez ou outra, minha quimera vence e me engole. Outras vezes mais, faço-a me vomitar e corro em direção à qualquer indício de vento que me faça feliz.
Mas ela nunca me deixa ir embora por completo.
Ela nunca deixa de ficar mais um pouquinho.


Amanda F.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A regra mais inconteste do Universo.


Não te preocupa, garota: A vida segue. E ela te leva junto, mesmo que pares.

Amanda F.

Olhos de água.

Era tarde da madrugada, ou cedo da manhã. Não sabia dizer ao certo. Saiu do banho e abandonou a toalha. Estava diante do espelho da forma como se pôs diante do mundo, assim que nasceu - lua. Sim, lua. As formas ditando o prateado romântico e distante, que orbita o mesmo planeta há tempo demais; as curvas ditando as faces internas, jamais lineares. Não a importava a forma - ela sabia que era nua o que muitos não são vestidos (havia escrito algo a respeito, aliás, em algum de seus cadernos escondidos, de capa monocromática, onde mantinha os textos longe de outros mundos). Não interessava. Nem o cabelo encharcado do banho, pingando gotas lentas sobre a costa, nem os braços caídos, nem as formas de lua. Não a importava. Diante do espelho, fitava os olhos.
Por um instante, parecia não ter notado os próprios olhos há séculos. Eram grandes, escuros; tinham os cílios irregulares, longos, curvados - como as faces internas, como o quadro todo. Não havia notado - eram doces, cansados. Fitou os próprios olhos tempo demais, de modo a enxergá-los. Sorriu. Pensou em como era só - na mania misantropa de ser só. Com olhos sós. Parou de sorrir. Eram olhos de água, tão densos, profundos, transbordantes - transbordavam um medo engraçado.
Fechou os olhos. Escondeu os oceanos. Tinha medo de formar uma expedição e se perder neles...

Medo de jamais encontrar alguém disposto a mergulhar.


Amanda F.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

9 de outubro de 2010.

Não foi culpa sua.
Foram as palavras que não compartilhamos entre nós, as lágrimas despejadas separadamente, a má interpretação, o contexto errado. Foram as brigas internas, as dependências sutis, embora interpessoais, os abraços, espaços e tempos que não compartilhamos. Foi o mau humor, o não-momento, o estresse, os gritos abafados na garganta. Foram os nós no estômago, as conversas adiadas, os fantasmas dentro do armário. Foram as fotos que não foram batidas, o sentimento que não foi revelado, a falta de cores nos dias. Foi a falsa tentativa de ser feliz. Foi a má interpretação das conversas. Foi o quase amor, o quase momento, o quase carinho. Foram as distâncias que não se recuperam, foi o tempo que não volta. Foi a crença de que tudo se reconstituiria, foi o imperfeito e o falso.
Não foi culpa minha.
Foi, e permanece sendo, culpa nossa.


Amanda F.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Être bien dans sa peau.

Eu amo não ter a necessidade de provar nada a alguém, ter o pensamento elevado, devorar filosofia, gostar dos detalhes, notar os relances, desenhar mapas das pessoas; ouvir música e dançar sozinha. Amo essa liberdade de ter uma sede voraz de quase nada, de querer engolir o mar, de ser tão eu sob palavras - de não ser uma criatura óbvia, e ao mesmo tempo ser tão simples.
Eu amo ouvir histórias, ter paixão pelas coisas, explodir-me às terças-feiras banais, ser tão incodificável, não tomar nunca um aspecto linear, e sempre pressionar as páginas com linhas e expressões redondas, complexas, multiformes; conhecer lugares, provar novos sabores - amo ainda mais se esse lugar novo for o coração de alguém.
Eu amo a arte - todas as artes; tudo que se torna expressão. E a ciência, o conhecimento, as estrelas, os paradigmas, o Sol, a dinâmica do Universo, as leis da natureza; a visão científica, real e tangível das coisas (embora fatalmente romântica, admitidamente sentimental e dotada de uma necessidade quase física de ajudar e cuidar dos demais).
Eu amo a sabedoria! Quero devorar o conhecimento, viver cada dia como se fosse o primeiro, e não o último. Que bobagem viver o último! Eu sou adepta do fascínio infantil de amar o começo, desenhar cada traço com as pontas dos dedos, e possuir um amor cego pelas perguntas.
Eu amo viajar, transcender a mim - não encontrar, jamais encontrar, em minha própria carne um limite ao mundo exterior - eu sou infinito pele adentro, e mundo afora.
Eu amo ser diferente de muita gente - e isso nunca me fez, ou fará, melhor do que ninguém. Apenas me fez ter o que de melhor poderia pedir a mim: o prazer de vestir tão bem a própria pele.


Amanda F.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Menina estranha.


Menina estranha, de 8 ou 10 elevado a vigésima segunda potência. Sofre dramas mexicanos, arranja umas paixões de aluguel, não precisa de muito para sonhar alto, vive fechando os olhos para beijar estrelas. Triste? Todo mundo é. Feliz? Sempre que pode ser. Depressiva de morte em fim de novela, divertida de palhaço em começo de circo. Não sabe o que é pouco, odeia amar pela metade. Se for pra chamar a atenção, quer o centro, se não for, quer a invisibilidade. Tem uns ápices de morrer de rir chorando, ou de viver chorando de rir, quase sempre, o tempo todo. Segurança? Tem um porto-seguro ambulante, mas se sente insegura em qualquer lugar - sem chão, daqueles fundos de poço intermináveis. Quer correr, andar, pular, voar - até alcançar aquele abraço que é o melhor lugar do mundo. É pra ontem, e, se for pra deixar pra mais tarde, é pra nunca. Supernova ambulante repleta de brilho e energia em excesso, com os ponteiros contados para a explosão. Odeia estar no ponto intermediário da vida, quer o futuro no presente, e o passado arquivado, para ver com um balde de pipoca, uma caixa de lenços e muita melação, daquelas dignas de barras e mais barras de chocolate. Menina estranha - adora ficar de cabeça pra baixo, e teve que aprender a viver de cabeça pra cima.

Amanda F.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Acredita.

E quando eu te disser que não aguento mais, não me acredita, tá? Quando eu te disser que a estrada está muito curvilínea, que os degraus da escada estão muito escorregadios, que o fardo que carrego nas costas está pesado demais pra suportar - não acredita em mim. Quando eu disser que o mundo inteiro agride, que o passado que engoli ainda grita, que aqui dentro está tudo doendo muito e está tudo muito seco - não me acredita. Quando eu disser, e vou dizer, que não vale a pena, que não seguirei em frente, que perdi tantas pessoas lindas que queria tanto que fossem próximas a mim, que não dá pra continuar se sentindo tão sozinha nesse mundo tão cheio - ainda assim, não me acredita.
Não é que eu esteja mentindo, porque estarei, de fato, falando a verdade arranhada do peito. Mas não me acredita mesmo assim, porque eu preciso de alguém que acredite em mim, e que diga que eu aguento, que me mostre nos olhos que confia que eu ainda possa seguir em frente, para que eu possa acreditar também. Por isso eu te peço: quando te disser que eu não aguento mais - por favor - não me acredita.

Amanda F.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

21.08.2011

Minha vontade de acreditar no impossível era muito maior que a minha descrença. E foi aí que me fundi de amor e ódio, esperando, o tempo todo, o impossível chegar.

Amanda F.

Sob a maquiagem.


Por mais que me cubra de veludo e seda, diamante e ouro, perfume e rosas - ainda cheiro à ferida aberta, ainda vivo a fratura exposta.
(23:07 - 24/08/2011)

Amanda F.

sábado, 27 de agosto de 2011

Respire fundo.

Começo a achar que estou realizando autofagia de tudo.
Não consigo pedir ajuda - eu não sei pedir ajuda. E eu não sei ser ajudada, mesmo que fizesse meu letreiro de SOS e tocasse fogo nele, tocasse flúor nele, tocasse sangue nele - troco os pés pelas mãos e tropeço nas esquinas de mim mesma, sempre que alguém tenta ajudar. Eu sinto como se estivesse destruindo a mim mesma e afundando o corpo na alma o tempo todo, e estou tão cansada. Tão cansada. Ninguém tem noção do quão cansado meu corpo está. Pergunto-me como algo tão psicológico se tornou tão físico, porque dói tanto, e arde tanto, o tempo todo. E concentração, e silêncio, e uma música um pouco mais lenta - são coisas que não dá pra aguentar. Medir os dias, os sorrisos e as notícias; medir as pessoas, as gracinhas e as baladas lúdicas; medir os estudos, os futuros e as prioridades - não consigo fazer marcação alguma fazer sentido, ou ser ao menos racional. Meu medidor quebrou e eu vejo tudo com as mesmas medidas gris - é tudo igual, dá no mesmo, deixo pra mais tarde; deixa o despertador não me despertar hoje, está bem?

Amanda F.